segunda-feira, 16 de Junho de 2008


TEXTO FRANCÊS:
http://entroncamentocapitaldocomboiocapitald.blogspot.com

AUTOR:
CUNHA SIMÕES

ENTRONCAMENTO:
o comboio
a terra
e os homens



O Entroncamento, baptizado
de Capital do Comboio,
pode também ser
proclamado capital da qualidade
de vida, do sossego,
do bem-estar e do prazer de
viver as delícias do campo,
com todas as vantagens de
uma cidade magnífica, onde
nada falta, e com o benefício
de estar a dois passos
dos grandes centros de cultura;
Coimbra e Lisboa.
As nossas catedrais são
as escolas, as de ontem e
as de hoje, as máquinas,
as carruagens, as igrejas,
os jardins. Autênticas ca-
tedrais do pulsar da vida e
da criação do ser humano.
Destacam-se como verdadeiros
monumentos: a segunda
Escola Camões, e as
casas do Bairro do mesmo
nome. Seguem-se as casas
do Bairro Vila Verde, as do
Bairro Frederico Ulrich, as
do Bairro do Boneco, as da
rua Latino Coelho. Os Bair-
ros Ferroviários. Enfim, a
Estação e os edifícios complementares.
O museu vivo
que foi semeado de carris,
carruagens e locomotivas,
sempre pronto a dar frutos
todo o ano. Quer mais monumentos,
quer mais história?
A locomotiva do jardim,
a Capela de São João
Baptista ou das Vaginhas,
a Igreja Matriz, a Igreja
Nossa Senhora de Fátima, a
bela central eléctrica e até o
edifício do Vapor, todos têm
alma, todos respiram beleza,
história e calor humano.
Além dos vários jardins,
espalhados pela cidade,
destacam-se pelo tamanho
e qualidade o Pereira Caldas,
o Serrão Lopes, e ainda
o fabuloso parque do Bonito,
com uma enorme albufeira
onde tudo é possível.
As merendas, as pescas, os
desportos.
O Entroncamento é uma
terra de grande densidade
populacional; cerca de 1500
habitantes por quilómetro
quadrado. Tem 22 000
habitantes. Mas ainda lhe
sobra espaço para ter uma
frondosa Zona Verde, pequenos
jardins espalhados
pela cidade e pulmões em
cada rua. Muitas casas possuem
um pequeno quintal,
algumas árvores e muitas
flores. É uma verdadeira cidade
jardim. Só folheando-
-a, a pé ou de bicicleta, se
lhe toma o aroma e se aprecia
na sua totalidade.
Respire o Entroncamento
na Primavera. Todas as ruas
têm cheiro.
O Entroncamento possui
vários centros comerciais,
centenas de estabelecimentos
e dezenas de grupos recreativos
e culturais.
No Entroncamento ainda
se ouve o cantar do galo, os
toques da alvorada e o murmúrio
do comboio.
Por armas de honra, valor
e mérito, o Entroncamento
ostenta um disco de
sinalização vermelho, dois
carris e uma coroa de cinco
torres.
É sobre esta cidade encantatória
que nos
v a m o s
debruçar.

II

Assim como os reis, os
guerreiros e os descobridores
se imortalizaram pelos
feitos que praticaram, da
mesma maneira os homens
que levantam as cidades e
lhes entregam o seu esforço,
também eles devem ficar
na história para que ao
morrer não desapareçam
com o mesmo destino dado
aos restantes animais.
Foi porque sempre assim
pensei que, simbolicamente,
ao escrever sobre o Entroncamento,
aqui misturo
o nome de alguns homens
que trabalharam no coração
e nas veias desta terra para
que ela se desenvolvesse
pela fusão de um punhado
de areia, carris, máquinas,
travessas e cascalho e
se tornasse uma agradável,
saudável e permanente cidade
em movimento.
São todos gente simples,
mas muito mais nobres que
muitos nobres. Desde o
simples carregador, o vendedor
de bilha e água, ou
de farnéis em sacos de papel,
o vendedor de jornais,
revistas e livros, todos foram
subindo pela sua inteligência,
pelo seu esforço e
pelo seu pensamento a lugares
de chefia na Coferpor,
a presidentes de Junta, até
aos Presidentes e aos Vereadores
da Autarquia, todos
Entroncamento, o comboio, a terra e os homens 11
eles cumpriram e cumprem
a sua missão. Todos serviram
e servem, com amor e
grande dedicação, o minúsculo
lugar que cresceu e se
fez cidade. Ao servirem o
Entroncamento serviram e
honraram Portugal.
Ao escrever sobre a história
que envolve o Entroncamento
não consegui deixar
de focalizar o ser humano e
o maravilhoso que é ver sair
das suas mãos e da sua inteligência
aquilo que tanto,
nacionais como estrangeiros,
podem observar: uma
das mais bem organizadas e
saudáveis cidades da Europa
que aconselho a ler, ver
e meditar.

III

O mundo despertou para
o progresso no século XIX
e, de repente, deu-se conta
que os homens são todos
iguais e que a todos é pedido
o mesmo esforço para
desenvolver e engrandecer
a terra onde nasceram ou
onde vivem.
Desde o aparecimento da
primeira locomotiva, posta
em movimento pelo inglês
Richard Trevithick em
1808, que morreu pobre e
arruinado, até ao seu compatriota
George Stephenson,
que soube aproveitar
os ensinamentos e evitar os
contratempos, o comboio
assumiu-se como um bem e
uma riqueza inquestionável.
Todos compreenderam que
era muito mais fácil, rápido
e rentável viajar num veículo
seguro, cómodo, barato e
que podia transportar muita
gente e muitas mercadorias.
George Stephenson ao
conduzir uma locomotiva
e as respectivas carruagens
entre as cidades inglesas de
Stockton e Darlington, em
1825, além de ter inscrito o
seu nome na história e de ter
ficado muito rico, mostrou
ao mundo qual a marcha do
progresso. Imediatamente
os Estados Unidos, a Rússia,
a França, a Alemanha, a
Suécia, a Bélgica e a Holanda
deitaram mãos aos carris
e em pouco tempo estes países
progrediam de maneira
surpreendente.
E nós? Que fazíamos nós
entre 1808, 1825 e por aí
fora até 1856, data em que
entrámos em linha. Em 1808
estávamos a ser invadidos e
roubados pelos franceses e
pelo seu comandante Junot,
a mando de Napoleão Bonaparte.
A rainha D. Maria
I, que estava louca, e o príncipe
Regente, o futuro D.
João VI tinham abandonado
Portugal e fixado residência
no Brasil. O Brasil passa de
vice-reino a reino, com a
capital no Rio de Janeiro e
com a designação de Reino
Unido de Portugal e Brasil.
Os franceses vieram cá
três vezes. A primeira com
Junot, a segunda com o saqueador
Soult e a terceira
com o príncipe dos ladrões,
Massena. Levaram tudo o
que apanharam à mão. O
País ficou de rastos. Pensa-
se até na constituição
de uma República Ibérica
com a Espanha. Depois de
muitas hesitações o rei voltou
contrariado, mas voltou.
Como em casa onde
não há pão todos ralham e
ninguém tem razão, as revoluções
foram o pão-nosso
de cada ano. Em 1825,
quando o comboio ganha
força em Inglaterra, o rei
está agonizante. Morreu em
1826. Sucede-lhe o filho D.
Pedro, que por nada, deste
mundo, quer largar o Brasil
e por isso entrega o reino
ao irmão D. Miguel com o
compromisso deste casar
com a sobrinha, que era ainda
uma criança. D. Miguel
aceita a proposta, mas não
cumpre o acordo e declarase
rei sem obrigações matrimoniais.
Resultado: uns
apoiam D. Pedro e a filha,
outros apoiam D. Miguel.
Até 1834 ninguém teve
descanso. As lutas fratricidas
foram muitas e indignas
de portugueses. Até que D.
Pedro veio do Brasil, venceu
o irmão, tomou o nome
de D. Pedro IV e preparouse
para governar Portugal.
Mas com tantos problemas,
guerras e ódios, ele que estava
habituado ao ripanço
do Brasil, ao fim de quatro
meses de reinado morre de
cansaço. Sucede-lhe a filha
D. Maria II. Com D. Maria
o País também não está
bem. Há ainda várias revoluções
e o dinheiro faltava
para tudo. Por este motivo
são vendidos, ao desbarato,
imensos bens nacionais.
Dou um exemplo: a Quinta
da Cardiga foi vendida à família
Sommer por 200 contos,
o que equivale, hoje, a
€ 1000. O Governador de
Timor, Lopes da Silva, chega
ao cúmulo de entregar
metade de Timor aos holandeses
para fazer face às
dificuldades. É preso por ter
exagerado nas suas funções.
A rainha morre de parto do
seu décimo primeiro filho
em 1853. E é com D. Pedro
V, com seu pai D. Fernan
do e com Fontes Pereira de
Melo que, apesar de todas
as dificuldades por que Portugal
passava, a via-férrea
iria arrancar. Era o futuro
dos portugueses que estava
em causa.
O rei inaugura o Caminho-
de-Ferro de Lisboa ao
Carregado em 1856. Levávamos
trinta e um anos de
atraso em relação aos países
atrás citados. Atraso que nos
tem custado a recuperar.

IV

O nascimento do Entroncamento
nunca passou pela
cabeça dos Governantes.
Durante os três primeiros
anos depois da primeira
amostra de comboio entre
Lisboa e Carregado ninguém
sabia muito bem para
onde se voltar. Em Portugal
é assim. De cada cabeça sai
sua sentença e ali andamos
a morrinhar tempos infinitos
até que nos dá aquela
fúria de loucos e aquilo que
não se fez em anos faz-se
em dias.
O Entroncamento nasceu
do casamento entre a Ponte
da Pedra e as Vaginhas, mas
vai crescer muito perto do
Casal das Gouveias. Os homens
largaram as enxadas e
a rabiça do arado para uns
metros mais à frente desbravarem,
desmontarem e
limparem o local onde seriam
lançados os primeiros
alicerces de uma povoação
que deita carris para nortesul
e Leste.
A Norte entra Porto dentro
e embrenha-se por terras
da Galiza. A Leste, por
Badajoz, procura a Europa
evoluída e civilizada e serve
de entroncamento a todas as
culturas. Para Sul atravessa
Lisboa e vai banhar-se nas
águas quentes do Algarve.
Estas linhas mágicas
facilitaram o intercâmbio
rápido entre populações,
antes ligadas por caminhos
poeirentos e lamacentos, ou
por estradas ainda do tempo
dos romanos.
O lugar das Vaginhas é
premonitório.
Vagin exprime a ideia de
vagina.
É a terra mãe. Aquela que
produz tudo. É a terra úbere.
Mas se partíssemos do
topónimo Baginhas, chegaríamos
à mesma conclusão.
A baga da erva-moura, a
semente, a fonte do nascimento.
Das Vaginhas saíram homens
e mulheres que iniciaram
a história desta fabulosa
cidade onde o trabalho
é o seu brasão de honra e
as linhas dos comboios as
veias por onde circulam as
gentes, muitas das quais por
aqui se hão-de fixar.
O esforço do crescimento
aumentou a inteligência
de quem foi delineando a
futura cidade.
O lugar das Vaginhas e a
Ponte da Pedra mais não foram
do que pontos de referência
para quem desejava
lançar estruturas de desenvolvimento.
O apeadeiro do entroncamento
da Ponte da Pedra
pouco tempo sobreviveu
à explosão do movimento
que este Entroncamento havia
de alcançar. O Entroncamento
tinha sido gerado.
Preparava-se para dar sinal
de vida. Os homens continuavam
a fecundar a terra
com trabalho, suor e muita
determinação.
O lugar das Vaginhas tinha
menos de 100 habitantes,
umas 22 casas de adobe
a cair aos bocados e uma
minúscula capela. Entre as
Vaginhas e o entroncamento
de linhas não eram mais de
quatrocentos metros cobertos
de oliveiras, laranjeiras,
nespereiras e uma ribeira a
separar, ligando os dois espaços
que sempre estiveram
irmanados e na posse dos
mesmos proprietários.
Se quiséssemos delimitar
este útero fecundado podíamos
dizer que o Entroncamento
é acarinhado e envolvido
pelo lugar das Vaginhas,
o casal das Gouveias,
o casal das Galhardas, o
casal Saldanha, os Foros da
Lameira, correndo-lhe pelo
corpo a ribeira de Santa Catarina
que o cruza na Rua
5 de Outubro, passa pela
travessa de Santa Catarina,
quase toca a escola Dr. Ruy
d’Andrade e se lança, suavemente,
na ribeira que se
espraia pela Quinta da Cardiga
até entrar no sequioso
Tejo.
Hoje todos se orgulham
da cidade que cresceu do
pó, do ferro, das tendas, e
das casas abarracadas e que
foi estendendo os braços e
abraçando o que sempre estivera
unido.
O Entroncamento emprega
gente de todo o País.
Mais de 90% dos habitantes
que fizeram o Entroncamento
vieram da Beira Baixa e
do Alentejo.
Nada se faz sem esforço.
E esforço foi algo que os
construtores desta cidade
nunca regatearam. O prazer
do trabalho é dominante.
Torna-os mais rijos. Alguns
parecem ter raízes nas suas
fundações.
Os primeiros caboucos
deste entroncamento de linhas
foram lançados em
1859 para que a ligação
Santarém-Abrantes pudesse
ser inaugurada em 1862.
O terreno é
p r e p a r a d o
à picareta,
estabilizado
nos pontos
mais frágeis.
Por cima das
t r a v e s s a s
são assentes,
a pulso,
centenas de
metros de carris em ferro.
Noite e dia os homens
não descansam.
A Revolução Industrial
estava em marcha, mas faltavam-
lhe ainda muitos utensílios
de suporte. Naquele
tempo não existiam máquinas
de levantar e colocar,
não existiam os guindastes
como os de hoje. Tudo tinha
que ser feito à mão. Por esse
motivo nascem as escolas
onde se aprendiam a fazer
os próprios utensílios.
Os homens do esforço
e do lançamento dos carris
não reivindicavam casas.
Para eles tudo estava bem.
Tendas de lona e duas dúzias
de barracas de madeira
foram os melhores abrigos
para a gente do trabalho e
das ferramentas.
Mas em redor deste entroncamento
de linhas há
pequenas terras, a alguns
minutos de caminho, como
a Barquinha, a Golegã e até
a Meia Via que albergaram
os mestres estrangeiros e alguns
portugueses. Para dar
um exemplo, temos notícia,
que o espanhol, mestre
Alfaro, tinha casa na Meia
Via.
Nas Vaginhas, as casas
não eram muitas, nem espaçosas,
nem confortáveis.
Entre os Casais das Vaginhas
e o Casal das Gouveias
o terreno era aproveitado ao
milímetro e os produtos da
terra, que antes eram vendidos
nas redondezas, passavam
agora directamente do
produtor ao consumidor ou
comercializados na taberna
onde o vinho, a mercearia,
os panos e os abanos andavam
de mãos dadas, a dois
passos dos operários, que
eram às centenas.
Nem o trabalho, nem o
frio, nem o calor os faziam
abrandar.
Os pioneiros vindos da
Beira Baixa transportavam
a força dos montes Hermínios.
Habituados a rasgar
barrocas e granito puro, os
trabalhos de corte de árvores,
a colocação do balastro
e assentamento de carris
eram bem mais leves. A seguir,
outros do Alentejo e
algumas dezenas de estrangeiros
apareceram.
A água não era em abundância
apesar do Tejo correr
a escassos quilómetros, mas
era ali naquele local que o
entroncamento de linhas era
fundamental.
Entre oliveiras e mato,
naquele ponto estratégico,
é que estava o segredo do
empreendimento e a raiz do
crescimento.
A primeira fixação, com
carácter ainda intermitente,
dá-se em 1861 para que as
linhas pensadas para Norte
e Leste não tivessem atrasos.
Desde os primeiros tempos,
apesar do precário alojamento,
os operários sentiam-se
felizes, cansados e
compensados. De onde vinham,
as condições de habitabilidade
não eram muito
melhores e aqui tinham a
vantagem deste micro clima
que propicia Invernos suaves,
e Verões muito agradáveis.
Trabalho não falta e o pagamento
é sempre uns réis a
mais que nos outros pontos
do País, além de ser um salário
fixo e mensal. No campo
trabalhava-se à jorna ou
à semana.
Em todo o País as dificuldades
são imensas. Entre
1861 e 1864 os salários dos
funcionários públicos são
reduzidos em 25 por cento.
Os trabalhadores ferroviários
sentiam-se privilegiados.
Saía-lhes do corpo,
mas o pagamento era certo
e não diminuíra.
Aumenta o contingente
de Espanhóis, Franceses,
Ingleses e Italianos. Ninguém
se queixa das condições
de trabalho apesar de
serem intensas e muito violentas,
comparadas com as
dos dias de hoje.
Passado pouco tempo,
defronte das linhas começaram
a surgir as primeiras
casas e as complementares
tabernas, para atender a
clientela que não era exigente
nem má de boca. A
primeira casa foi o rés-dochão
do Prédio Paris, o segundo
corpo do Prédio é
posterior.
Estamos na Praça da República,
seguem-se à esquerda
do Prédio Paris, um
café, uma mercearia, uma
taberna mercearia, uma
padaria, a travessa Zé dos
Fósforos, a casa Carvalho,
depois já na rua Latino Coelho,
a Pensão Faustino, hoje
Carlos Lopes, e outras casas
que ainda hoje pontuam a
emblemática rua. Se olharmos
bem a Praça da República
e a zona envolvente
podemos melhor comparar
o antigo com o moderno e
ver como se desenvolve a
cidade.
Desde o início dos trabalhos,
as tabernas acompanharam
o sistema do assentamento
dos carris. Estavam
sempre situadas em lugares
de passagem dos trabalhadores.
À taberna do Luís
dos Reis, do Zé das Osgas
foram-se juntando a taberna
do Alfredo, do Carvalho, do
Xico Condesso, da Remísia,
a taberna da Ana Brites
da Guia, do Vila Franca, a
do Loureiro, a do Gabriel, a
tasca do Careca, a do Tramagal,
a tasca da Micas,
o Ramiro, a Natércia, a
dos Sapateiros, a Maria da
Mina, a Tarouca, o Medina,
o Bernardo, o Cu da Mula,
a taberna do Romeira, a
taberna do Zé da Parreira,
a taberna do Venâncio que
além de cumprirem um dos
seus mandamentos sagrados:
“dar de beber a quem
tem sede” ainda lhes juntavam
umas saborosas sandes
de queijo, umas lascas de
presunto, ou atum, quando
não era peixe frito do rio.
Só pelos anos trinta do século
passado é que a carroça
do João Valente, por alcunha
o Faiante, ia buscar o peixe
à Nazaré, presenteava estes
mouros de trabalho, com a
sardinha e o carapau. Ele e
o Granadas. Dois vendedores
de peixe que às vezes se
desentendiam. Quando isto
acontecia quem beneficiava
eram os compradores.
Todas as tabernas passaram
a vender mercearia
e outras miudezas. Estes
estabelecimentos quase gozavam
de protecção governamental.
Anos mais tarde, Salazar
para equilibrar as finanças
e ajudar os lavradores lançou
mesmo o slogan: “beber
vinho é dar de comer a
um milhão de portugueses”.
Isso fez de nós os maiores
bebedores do mundo. Mas
não os maiores bêbedos.
Eu próprio assisti, enquanto
andei pela Europa, a grandes
carraspanas em França,
Inglaterra, Alemanha e Noruega.

V

Os primeiros gestores
da Companhia, ao ficaram
cientes de que os Governantes
não mais mudavam
de ideias quanto ao traçado
das linhas férreas e que
aquele entroncamento de
linhas, apoiado por D. José
de Salamanca y Mayol, o
impulsionador da Companhia
dos Caminhos de Ferro
Portugueses era definitivo,
imediatamente lançaram as
estruturas de apoio ao pessoal
adstrito aos comboios.
Meto aqui um aparte para
dizer que o homem que escolheu
este entroncamento
de linhas nasceu em Málaga
em 1811 e faleceu em
1883. Segundo a revista “O
Ocidente”, nº 150 de 1883.
Dom José era uma força e
uma inteligência. Formouse
em direito aos 22 anos.
Tudo quanto se metia transformava
em sucesso.
A revista “O Ocidente”
acrescentava ainda as seguintes
notas:
“Ao mesmo tempo que
a sua casa oferecia refúgio
aos grandes conspiradores
políticos, as suas repartições
davam trabalho e sustento
aqueles que as alterações
políticas lançavam na
miséria. Não tinha ressentimentos,
era leal para todos,
e pronto a congraçar-se com
os adversários”.
Foi este homem que chegou
a Portugal para dirigir
a Companhia, depois dos
primeiros tempos, completamente
disparatados, para
que a formação de uma
Companhia de Caminhosde-
Ferro se organizasse.
Eu digo disparatados devido
à nossa proverbial ingenuidade.
Os portugueses
têm de se capacitar que nos
negócios devem ser muito
cuidadosos e agressivos
na discussão das condições
para realizar qualquer contrato,
seja ele grande ou pequeno.
Têm de pôr aí muita
prudência, inteligência e
capacidade negocial para
ele ser rentável.
Não posso também deixar
de chamar a atenção
para outro facto. Normalmente
os portugueses são
maus gestores. Mas são
óptimos executores quando
têm um gestor a dirigir. José
de Salamanca era um óptimo
administrador e os engenheiros
portugueses que
escolheu, João Crisóstomo,
João Evangelista, João Vitorino,
Joaquim Nunes, Luz
de Abreu foram excelentes
executores, assim como todos
os operários por eles supervisionados.
Afirmo isto porquê? Porque
ao contrário do que ainda
acontece nos nossos dias,
em que as obras ultrapassam
os prazos estabelecidos e os
custos aumentam escandalosamente,
com José de Salamanca,
as linhas contratadas,
que tinham um prazo
de oito anos, foram terminadas
em quatro, mesmo
com todas as dificuldades
que apanhou pela frente e
pela falta de máquinas, que
não existiam na altura e que
são corriqueiras nos nossos
dias.
É caso para meditarmos
no assunto. O gestor português
tem de aprender a ser
tão bom a mandar como é a
executar, a menos que não
nos importemos de ser geridos
por espanhóis, alemães,
suíços, holandeses ou ingleses.
A mim não me agrada.
Mas se não incitarmos os
nossos filhos e os nossos
netos a estudar é o que acaEntroncamento,
o comboio, a terra e os homens 25
bará por acontecer.
A realização desta obra
oferecia muitas dúvidas porque
ninguém queria perder
privilégios. Com a ganância
perderam-nos. A mesquinhez
cega as pessoas.
O egoísmo foi mais forte
que a inteligência.
Quase até ao último momento
se hesitou na localização
do entroncamento
de linhas. Havia de ficar na
Barquinha, em Torres Novas,
na Atalaia ou em Tomar?
O interesse obstruiu o
discernimento dos beneficiários.
Os homens da Barquinha
opuseram-se terminantemente
a que o entroncamento
de linhas se fizesse
naquele local, uma vez que
lhes ia prejudicar o comércio
fluvial.
Torres Novas não se interessou
pelo facto e Tomar
idem, apesar dos avisos dos
técnicos que viam grandes
vantagens em localizar o
entroncamento de linhas na
Barquinha, Torres Novas,
Tomar ou Atalaia onde também
poderiam dispor, com
mais facilidade, de trabalhadores
e alojamento.
Perante tantas hesitações,
perdas de tempo e dinheiro,
D. José de Salamanca, farto
de ouvir os maiores despautérios
apontou o local que
nunca estaria nos planos dos
gestores. Para o Rei teria
fundamentado a sua decisão
afirmando que o espaço era
deserto e lamacento, o que
era precisamente a antítese
do frondoso espaço cheio
de oliveiras e de mata, mas
que poucos aproveitavam.
Os das Vaginhas, da Ponte
da Pedra e da Quinta da
Cardiga tinham bem com
que se entreter. Era deserto
de gente e alagadiço só nas
enxurradas que viessem dos
lados das Quatro Estradas
por bazófia da Ribeira de
Santa Catarina.
A balizar esta minha
afirmação estão as várias
descrições do lugar onde o
Madrugo e os seus, poucos,
mas destemidos companheiros
mataram, em Janeiro
de 1811, vinte soldados
franceses. Foi precisamente
neste local onde foram lançadas
as linhas do caminhode-
ferro.
De entroncamento (junção
de duas ou mais linhas
férreas), em lugar mandado
limpar e sem ocupação
humana fixa passou a Entroncamento
(lugar de habitação
e pólo de desenvolvimento).
Depois das tendas e barracas
iniciais a qualquer
obra, foi comprado o espaço
envolvente para que não
houvesse dispersão de funcionários.
Em 1863 o francês Baptiste
Landarache lançou
as bases do célebre Prédio
Paris mandando para tal
construir uma casa de résdo-
chão.
Podemos tomar o rés-dochão
do Prédio Paris como
o símbolo do nascimento do
aglomerado.
Ao contrário do que
aconteceu, por quase todo o
País, o Entroncamento não
se desenvolveu ao redor de
uma Igreja. A catedral irradiante
foi o Prédio Paris que
norteou a população que
aqui começava a assentar
arraiais. É assim que começa
a despontar a rua Latino
Coelho e todo o outro aglomerado
que haveria de surgir,
como já referimos.
O Entroncamento nasce
do entroncamento de raças
e culturas. Há uma espécie
de miscigenação entre franceses,
italianos, espanhóis,
ingleses e portugueses. Esta
terra ganha com a nova semente
que é lançada neste
útero sequioso de vida.
No corpo e na alma de
quem aqui se fixa, uma comunidade
multirracial cresce
dia a dia.
Quando em 1864 se inaugura
a primeira fase da linha
do Norte, o trabalho é tanto
que ninguém pensa em comodidades
neste lugar onde
tinha sido erguido um simulacro
de Estação a que fora
dado o nome de Apeadeiro
da Ponte da Pedra como
ponto de referência para um
local onde só havia oliveiras
e mata. Aqui faltava tudo
desde a água à luz eléctrica
que, mesmo em Lisboa, era
só uma miragem.
Tudo vivia à luz do petróleo
ou da candeia de azeite.
Comércio e vendedores
eram incipientes. As tabernas
são as que proliferam e
suprem as primeiras necessidades,
mas cada um tinha
de trazer farnel de casa. Começam
a aparecer os célebres
baús dos ferroviários
para transporte dos mantimentos
essenciais. Não
faltavam couves, tomates,
melões e feijão verde que
nas Vaginhas eram fartos e
baratos.
Em 1864 dois acontecimentos
de grande relevância
se dão em Portugal. Um,
apoiado no pensamento; o
Diário de Notícias, e outro
assente no conhecimento
das novas tecnologias e do
progresso. A inauguração
da primeira fase da linha do
Norte. A partir deste momento
o Entroncamento é
uma realidade.

VI

Portugal, de repente, deu
um enorme salto qualitativo.
A Europa, culta e civilizada,
estava a aproximarse.
Mas a Europa pouco nos
podia oferecer. A Espanha
estava pior que Portugal. Os
caminhos eram péssimos e
os atritos entre as diversas
regiões espanholas constantes.
A França continuava à
procura de se encontrar.
Feita a escolha definitiva
do lugar para confluência e
dispersão de linhas, os Caminhos-
de-ferro tudo apostaram
para fazer deste entroncamento
de linhas um
local de especialização dos
seus trabalhadores.
Em 1862 havia, como
se disse, algumas tendas e
casas de madeira, além de
barracões para o material
utilizado.
Em 1864 já havia material
circulante de apoio e
oficinas. Havia mesmo uma
bem equipada oficina de reparação
de máquinas.
As estruturas de apoio
aos passageiros começaram
de imediato. Os trabalhaEntroncamento,
o comboio, a terra e os homens 29
dores estrangeiros, sempre
melhor pagos que os portugueses,
incentivaram também
a que o conforto andasse
a par do movimento.
Existiu logo, desde o início,
um bufete restaurante
para refeições rápidas e
pouco depois outro restaurante
e uns cómodos bem
arranjados e agradáveis.
Leva-me a concluir que isto
tenha sido assim por duas
razões: a primeira porque a
quantidade de gente, neste
cruzamento de linhas e com
paragens de espera, se tornara
muito intenso.
A segunda razão é que
Baptiste Landareche, ele e
os seus sobrinhos Virgile
Shevaux e Frédérique Paris,
em 1863, ao chegarem
a este entroncamento de linhas,
verificam que é uma
autêntica a mina. Tomam de
renda o Bufete da Estação
e pensam, imediatamente,
alargar a fonte de rendimento
ao fazer um restaurante
hotel para gente de dinheiro,
não só para os estrangeiros
que aqui vivem, mas
para nobres e burgueses endinheirados
que prefeririam
não se misturar na confusão
do bufete.
Se o senhor Landarache
chega em 1863, tem mais
que tempo para arranjar um
bom restaurante, à francesa,
com todos os adornos e ademanes
próprios dos franceses,
eles que eram especialistas
em cativar, em saber
ganhar dinheiro, e tinham
gosto em fazer sobressair as
subtilezas do trabalho.
O negócio devia ser tão
rentável que, logo no ano
seguinte, Baptiste Landareche
constrói o rés-do-chão
do célebre Prédio Paris,
onde montou um bom restaurante
e ainda lhe sobrou
espaço para alguns quartos.
Temos de ver que a Estação
primitiva se encontrava
onde hoje existem as bilheteiras,
ou seja, a escassos
metros do Prédio Paris.
A 22 de Maio de 1864 é
inaugurada a primeira fase
da linha do norte.
A população de intermitente
tornou-se permanente.
O entroncamento começa
a tornar-se Entroncamento.
Em 1864, além das poucas e
vetustas casas das Vaginhas
ergueram-se casas para recolha
e armazenamento de
material circulante e de peças
sobresselentes para acudir
rapidamente a qualquer
falha de material.
O Prédio Paris serviu,
de imediato, como hotel de
apoio ao bufete da estação,
além de ter como hóspedes
alguns dos mais altos
funcionários estrangeiros e
portugueses da companhia.
Acrescento mais uma achega,
o rei D. Luís, dormiu
mesmo no Entroncamento.
Onde? Só podia ser no Prédio
Paris. Julgo que tudo
ficará melhor esclarecido
quando forem classificados
os milhares de documentos
que a CP guarda desde essa
época.
A terceira razão porque
afirmo que já devia haver
restaurante e bons cómodos
é porque em 1866, o
escritor Dinamarquês Hans
Christian Andersen o afirma
ao referir-se a um hotel
verdadeiramente luxuoso
e moderno. Isto quer dizer
que restaurante havia,
alojamentos confortáveis
também, e que a expressão
encomiástica não pode ser
tomada como manifestação
simpática para um País que
ele desconhecia, mas sim
fruto de sincera admiração.
Normalmente, os escritores
são frontais naquilo que
afirmam. Não são muito dados
a salamaleques.
Quanto a ter falado na
vila do Entroncamento também
não é de estranhar para
um escritor habituado a folhear
tudo o que é história e
cultura.
Aqui podemos seguir
duas vias: primeira, as Vilas
romanas tinham a dimensão
da estação do Entroncamento
e metaforicamente
podia ter usado a expressão.
Segundo, Andersen, habituado
a visitar, frequentemente,
a França, onde qualquer
lugarejo, naquele tempo e
durante largas dezenas de
anos, era apelidado de Ville,
automaticamente, o escritor,
extrapolou para outros
povos e outras regiões.
No número 11 da revista
“O Foguete”, Carlos Barbosa
Ferreira, referindo-se ao
Entroncamento diz a certa
altura do seu texto “...esta
estação assume-se como
a de maior movimento da
rede nacional e possui infra-
estruturas de apoio aos
viajantes...”, como complemento
desta ideia apresenta
seguidamente um texto de
“A Nação” datado de 21
de Janeiro de 1873 onde o
restaurante é mencionado
como já o fora antes por
Andersen. Daqui podemos
inferir que este nó de ligação
ia ser fundamental para
a diversificação das linhas
e de que aqui os comboios
tinham forçosamente de se
cruzar, parar e esperar uns
pelos outros.
O movimento devia ser
de tal ordem que em 1875,
Alberto Pimentel escrevia
no “Guia do viajante nos
Caminhos-de-Ferro”, edição
de Ernesto Chardon,
Porto, um capítulo sobre o
Entroncamento, a estação e
o restaurante, onde Augusto
Soromenho, fez esperar o
comboio até que ele acabasse
de jantar.
Era o tempo em que os
homens da cultura, os políticos
e outros que tais,
egoisticamente, impunham
os seus direitos, a um povo
pouco mais que semianalfabeto,
bondoso e pouco
propício a arranjar conflitos
com os “grandes”.
Augusto Soromenho quis
comer descansado, impôs
os seus direitos, e não se
importou com os que esperavam
no comboio.
Faço estas considerações
só para compreendermos o
ser humano, os seus humores
e a passividade deste
povo maravilhoso que é tão
mal tratado e que tão pouco
se queixa.
Era fundamental providenciar,
logo desde início,
condições que permitissem
conforto aos passageiros.
O negócio devia ser descomunal,
em virtude do
intenso movimento de passageiros
que por aqui passavam,
nas subidas e descidas,
para Norte, Sul e Leste.
Oiçamos, agora, Alberto
Pimentel no capítulo XIX
do “Guia do Viajante”. Aí
temos, além de uma explicação,
uma informação e
um melindre que eu tomo
como um exagero.
A explicação é dada, e
bem, sobre as ligações que
aqui se cruzam. A informação,
e esta é muito importante,
é que o Entroncamento,
em 1875, ainda continuava
associado a outros lugares.
O primeiro que nos aparece
é o de apeadeiro da Ponte
da Pedra, mas Alberto Pimentel
diz-nos o seguinte:
“Na estação da Barquinha,
vulgarmente conhecida por
Entroncamento...” Estão a
ver onde quero chegar. O
Entroncamento era mais
entroncamento que Entroncamento.
A seguir às três
explicações, e a estes acrescentos,
vou colocar todo o
texto para cada um se deliciar
com os primórdios desta
terra, que nos deslumbra
pela naturalidade e pela
simplicidade. É uma terra
sem vaidades, mas com
muito valor pelos exemplos
que ela pode oferecer
a Portugal. Digamos que, se
o Entroncamento fosse um
ser humano, ele era o Bill
Gates português.
O melindre do Sr. Alberto
Pimentel deriva porque os
jantares eram servidos com
sopa muito quente e os passageiros
não tinham tempo
para comer tudo. Se a sopa
fosse fria refilava de igual
modo, porque a meia hora
de espera entre comboios
não dava para se comer comodamente.
Tenho ainda a
acrescentar que o pagamento
devia ser adiantado. Estão
dadas as explicações. O
leitor faça favor de digerir o
texto do Sr. Alberto Pimentel.
ENTRONCAMENTO
Décima sexta estação
– Aviso importante – Os
jantares do Entroncamento
– Protestos dos passageiros.
“ Primeiro que tudo: Há aqui baldeação de passageiros.
Se, indo para o norte, não queres aparecer em Badajoz,
deves perguntar a um empregado quais são as carruagens
que seguem para o norte e quais as que seguem para leste.
Dito isto podemos conversar.
Na estação da Barquinha, - vulgarmente conhecida pelo
nome de Entroncamento, porque é justamente n’este ponto
que o caminho de ferro de leste e o caminho de ferro do
norte entroncam na mesma linha, - tens tu, leitor amigo,
que te demorar trinta minutos, durante os quais hás-de fazer
alguma coisa. Se comerás? Há bufete na estação, certo
é, mas se partiste no comboio da noite (correio), chegas
ao Entroncamento às onze horas e quarenta minutos; se
partiste no da Manhã (misto), chegas às dez horas e trinta
Entroncamento, o comboio, a terra e os homens 35
minutos, horas impróprias de jantar. Todavia, como tu, se
vieres do Porto no comboio misto descendente, aqui deves
chegar às 4 horas e 20 minutos da tarde, hora de jantar,
deixa-me prevenir-te de que durante esses trinta minutos
de demora é servido no restaurante o mais confuso, o mais
tempestuoso, o mais pandemónico jantar de que há noticia.
Se quiseres atraiçoar desapiedadamente o estômago, -
este belo companheiro do homem, cuja fidelidade tão precisa
lhe é – senta-te à mesa, onde o prato de sopa fumega
pavorosamente, escalda com o primeiro sorvo a goela e o
esófago, incomoda-te, atordoa-te no pandemónio da sala,
onde os criados se enlabirintam intencionalmente para
servirem mal, e levanta-te desesperado, verdadeiramente
desesperado, - sem haveres comido e tendo pago 500 réis.
Não há memoria nos fastos pantagruélicos de tão leve e
tão tormentoso jantar, - por tanto dinheiro. Três ou quatro
pratos perpassam pela gente com uma rapidez vertiginosa,
de modo que mal lhe podemos tocar, e para sempre desaparecem
na onda da revolta. Depois... fica-se esperando
pelo jantar, e quando a gente cuida ver acalmar a tormenta,
dá-se o sinal de partida, e começam os passageiros a
correr tumultuosamente para o vagão protestando! Em
Portugal os protestos de pouco valem, maiormente se são
formulados - a correr.
Os jornais têm falado algumas vezes d’estas cenas tumultuárias
do restaurante do Entroncamento, e, ainda outro
dia, uma correspondência de Coimbra para o Diário de
Notícias referia que os passageiros, entre os quais figurava
36 Cunha Simões
o ilustre professor, sr. Augusto Soromenho, haviam protestado
que não se levantariam da mesa sem ter jantado.
Parece que d’essa vez o comboio se resolveu a esperar
pelo jantar.”
outros, de muito menores
dimensões, se lhe juntaram
como se pode verificar por
fotografias que coloquei no
livro, tenho também o testemunho
do Dr. Valle e Azevedo,
que com os seus rijos
83 anos, me contou que o
bisavô, logo que a circulação
dos comboios se começou
a fazer regularmente,
por volta de 1864, imediatamente
construiu uma
casa, em frente da estação
para assim mais facilmente
escoar a produção de vinho
da quinta “Valle e Azevedo”
da Lamarosa.
Só depois de ter sido
inaugurado o ramal de Tomar,
em 23 de Setembro de
1928, e a Lamarosa ficou
servida pelo comboio é que
Como se vê pelo excerto,
o negócio não só interessou
a portugueses como a estrangeiros
e devia ser rentabilíssimo.
O caso mais relevante
e que comprova o que
afirmo é o do Prédio Paris,
uma casa monumental para
a época e num local ainda
pouquíssimo desenvolvido
e habitado.
Para comprovar a minha
convicção de que a seguir ao
Prédio Paris imediatamente
Entroncamento, o comboio, a terra e os homens 37
a pequena casa, com uma
porta e duas janelas passou
para outros donos. Diga-se
como esclarecimento que o
comboio atravessa a quinta
em 5 quilómetros, extensão
que foi imediatamente disponibilizada
sem quaisquer
contrapartidas.
O desenvolvimento do
Entroncamento fez-se paulatinamente.
Por isso nos
deslumbra. A cidade é uma
das que tem maior qualidade
de vida em todo o País.
Em 1875 já havia a incipiente
pensão da Maria
Costureira e em 1879 a Barraca
da Rata como apoio aos
trabalhadores ferroviários
e boa fonte de rendimento
para os proprietários.
Por volta de 1879, os
trabalhadores já contavam
com um bem guarnecido
armazém de víveres e em
1882, passados vinte anos,
dos primeiros aterros, desaterros
e necessárias escavações,
os Caminhos-de-
Ferro, conscientes da necessidade
de fixarem aqui,
permanentemente os seus
trabalhadores, constroem a
primeira escola Camões e
mais vinte e quatro casas.
Paulo Sozzi, o construtor
da escola, aproveita os
operários para edificar, por
sua conta, as casas da Rua
Sozzi e até um pequeno teatro
onde hoje se encontra o
Pavilhão Gimno-desportivo
do União.
Mas as casas deviam ser
em maior número do que
possamos imaginar pois em
1882 aparece a primeira escola
Camões. Se há escola é
porque há miudagem e na
turalmente casais que não
habitam em tendas de lona e
que já estão fixos, há vários
anos, no pequeno lugar. Por
outro lado o teatro, mesmo
minúsculo, vem confirmar
que há gente fixa e com disponibilidades
económicas
para sustentar o negócio.
A Escola ficava no local
onde hoje se encontra um
bom dormitório da C.P. entre
a Rua D. Afonso Henriques,
as linhas dos Caminhos-deferro,
e no enfiamento da
rua Eng. Mário Costa que
entra na Zona Verde. Este
dormitório, actualmente,
não tem qualquer serventia
apesar de estar muito bem
conservado.
Martelemos a ideia. A escola
Camões ficou concluída
em 1882. Se a escola ficou
acabada em 82, insisto,
é porque os funcionários da
Companhia já estavam instalados
e com raízes. Já havia
gente que era necessário
apoiar. Quanto mais soubessem
os filhos dos ferroviários
mais beneficiariam.
Esta política foi acertadíssima.
A Companhia merece
os maiores encómios.
A Companhia não só implementou
a construção de
sólidas oficinas para monEntroncamento,
o comboio, a terra e os homens 39
tagem e reparação de material
circulante como criou
escolas de aperfeiçoamento
dos seus trabalhadores além
de lhes proporcionar casas
com boas condições de habitabilidade
e sempre com
o respectivo jardim e horta
não só para saciar a vontade
do homem Português, sempre
ávido de campo, mas
também para o prender ao
lugar.
O Entroncamento ainda
hoje continua a ser a terra
com mais diversidade de
gentes vindas de norte a sul
e que aqui convivem saudavelmente.
40 Cunha Simões

VII

A futura cidade lança
bases sólidas. Tudo é feito
com muita prudência. Os
caminhos-de-ferro têm gestores
competentes. O pessoal
de trabalho, a maior parte
dele analfabeto, sente alegria
de aprender com quem
sabe mais. Uns dão a força
da inteligência e do saber,
outros entregam a força dos
braços porque compreendem
que uns sem os outros
não podem sobreviver, nem
vão a lado nenhum.
Mas estes homens começam
a perceber que aqueles
que sabem ler e contar avançam
mais depressa. Sabem
mais. Os homens da gestão
e do empreendimento também
compreenderam que
abrindo-lhes mais os olhos
todos ganhariam.
Era fundamental que
aqueles que quisessem,
aprendessem a ler e a contar.
Se bem o pensaram
mais rápido o fizeram. Os
trabalhadores aderiram, em
massa, à escola. Em poucos
anos, os técnicos estrangeiros
começaram a ser substituídos
por estes homens habituados
a carregar toros de
madeira, lançar vias e abrir
caminhos.
Os próprios operários se
espantam das suas capacidades.
Nunca pensaram que
juntar letras fosse tão fácil
como trabalhar com a pá e
a picareta, nestes macios
campos do Ribatejo.
Afinal todos os homens
são iguais. A única diferença
está no conhecimento.
Os estudos são o segredo
entre guardar cabras e pouco
mais saber que elas ou
aprender nos livros o que
está simplificado.
Afinal a cabeça do pobre
é igual à do rico.
Afinal a cabeça do engenheiro
é igual à do fogueiro.
A única diferença é que uma
vai à escola e a outra não a
frequenta.
Os trabalhadores ferroviários
depressa entenderam
isso. Habituados ao serviço
duro e penoso, fácil lhes foi
fazer aquele trabalho de lápis,
caderno e livro. Muitos,
depois de um dia de labuta, à
luz das velas ou do candeeiro
a petróleo, mastigavam as
contas de somar, multiplicar,
dividir ou diminuir. Bebiam
as primeiras letras e em breve
tudo se tornava mais fácil.
Esta gente rude e possante
abriu como uma frágil flor.
Começou a unir a teoria à
prática. O trabalho tornou-se
mais acessível porque os factos
eram resolvidos na hora e
imediatamente sabiam como
poupar esforço para dar o
mesmo rendimento, que antes
era bem mais pesado.
A descoberta desta simples
coisa que é o aprender
através dos livros fez com
que a bela e bem organizada
cidade, que é hoje o Entroncamento,
seja a mais alfabetizada
de todo o país.
Os primeiros professores
foram excepcionais numa
terra excepcional. Muitos
ainda se lembram com saudade
da D. Maria Adelaide,
D. Palmira Lopes, D. Rosalina
Pereira, D. Amélia, D.
Isabel Teodósio, e dos professores
Corujo, Santana,
Torres, Baço e Barreiros.
As tabernas, que tinham
proliferado nos pontos de
passagem, e onde os trabalhadores
afogavam as saudades
da mulher e dos filhos
viram imediatamente que a
vender copos de três já não
se governavam.

VIII

Os finais do século XIX
são dramáticos. Logo no início
do reinado de D. Carlos,
a Inglaterra exige que abandonemos
os territórios entre
Angola e Moçambique, hoje
Zâmbia. Perante a força o
rei cedeu. A Grã-Bretanha
era uma grande potência,
com dezenas de milhões de
pessoas e nós, em milhões,
não passávamos dos dedos
de uma só mão.
O começo do reinado foi
azarado. Os republicanos
aproveitaram para testar a
sua força e o apoio do povo.
A 31 de Janeiro de 1891
tentam a sorte. A revolta é
sufocada.
O clima do país não é
famoso, mas a pequena
localidade que tinha sido
formada por uma linha de
caminho de ferro continuava
indiferente às lutas partidárias
e consciente de que
o trabalho tinha de se fazer.
A população trabalhadora
aumenta. Aqui não há desempregados,
nem vadios.
Todos têm consciência que
é do trabalho que nasce a
riqueza, a prosperidade e a
felicidade. Muitos sabiam
por experiência própria que
o pobre é um excluído.
Em 1900, os cuidados
de saúde no Entroncamento
são reforçados com a
farmácia Magalhães, que,
um pouco mais tarde, seria
vendida ao farmacêutico
António Lucas. A farmácia
Carvalho chegou uns anos
depois. Dos médicos destaca-
se o Dr. José Vítor das
Neves que foi assassinado
por um tresloucado à porta
de sua Casa. O Dr. Fanhais
e o Dr. Francisco Novais
também deixaram nome
pelo humanismo como tratavam
os doentes.
O Entroncamento caminhava
passo a passo, meditando
nas agruras da vida ou
nas suas alegrias, mas nunca
voltando a cara aos desafios
e, por isso, sempre na senda
do progresso. As indústrias
começam a despontar. José
Marques Agostinho, dedica-
se à compra e venda de
peles passando depois para
o fabrico do vinagre, do espumante
Magos, do posto
de abastecimento de gasolina
etc. Depois dos Agostinhos
seguiram-se a Compal,
a firma António Silva e
filho, hoje, com Vinagres e
Torrefacção, mas que no começo
teve o negócio do carvão,
vinhos e azeites e ainda
casca de sobro por causa
da indústria de curtumes em
Alcanena. A casca de sobro
servia para a limpeza de
peles. Uns anos mais tarde
a Valura, a Sonorte, a casa
Adelino Barbosa da Silva,
as madeiras Progresso, os
Policarpo, os Parrachos e
muitas outras.
Na política Nacional, em
1900 a dívida externa é tão
grande que o deputado José
Bento Ferreira de Almeida
propõe a venda das colónias
com excepção de Angola e
São Tomé.
Os republicanos aproveitam
este desregramento
para desacreditar o rei e
a monarquia. A excitação
atinge a paranóia.
D. Carlos passa diversas
vezes para o Norte. Vai de
comboio e pára sempre no
Entroncamento onde descansa,
um pouco, e come
alguma coisa, sempre muito,
porque ele comia bem e
com prazer. Gosta do local
e da comida, e tanto assim é
que vem ao Entroncamento
assistir a um Concurso Hípico,
no local conhecido,
ainda hoje por “Corridas”.
Como de costume deliciase
com os pratos servidos
no restaurante principal da
Estação, que ainda estaria
instalado no rés-do-chão
do Prédio Paris. No Hipódromo
são-lhe oferecidos
saborosos figos que ele e a
rainha D. Amélia saboreiam
com gosto e elogiam calorosamente.
A 28 de Janeiro de 1908
há uma tentativa revolucionária
contra a monarquia.
Quatro dias depois, no dia 1
de Fevereiro são assassinados
o rei D. Carlos e o Príncipe
Luís Filipe.
A República estava à
porta.
A 5 de Outubro de 1910,
D. Manuel parte para o exílio.
Começa a primeira República,
com muitas promessas
e muita demagogia.
O povo acredita. Mas
quando se dá conta que não
recebe o que lhe prometeram,
revolta-se. A primeira
República entre 1910-1926
é um fervilhar constante de
revoluções, fome, miséria e
milhares de mortes.
Em 1911 nasce, no Entroncamento,
o Grupo Recreativo
1º de Outubro de
1911 “O Parafuso”, que
mais cimenta a ligação entre
as gentes do pequeno lugar
e lhes dá a consciência da
solidariedade. Unidos, tornam-
se mais fortes. Hoje o
Parafuso tem uma enorme,
moderna e bem apetrechada
sede na Rua 5 de Outubro,
onde além de outras actividades
sobressai o Judo.
Em 1912 a Carris faz
uma greve de 26 dias. Afonso
Costa proíbe as greves
que antes o Governo tinha
autorizado. Os grevistas alcunham-
no de Racha sindicalistas.
São presos dezenas
deles. No meio de todo o
caos e de tantas convulsões,
o Entroncamento consegue
ultrapassar as dificuldades
e, linha a linha vai consolidando
as suas bases.
Em 1912, José Ferreira
Malaquias, Carlos José
Caetano e Joaquim Ferreira
Malaquias dão o primeiro
passo para a constituição de
uma Cooperativa.
Em 1913, José Ferreira
Malaquias, legaliza a que
46 Cunha Simões
hoje é a SCAFA – Cooperativa
de Consumo dos Ferroviários
e Aderentes, CRL. A
finalidade é muito atraente
e talvez a mais inovadora
da Europa. A Cooperativa
consciencializa os sócios
para a força que eles representam
se estiverem unidos.
José Ferreira Malaquias,
é a alma e a inteligência
do empreendimento com o
qual pretendia resolver um
problema económico e social.
A Cooperativa conseguiu
segurar os preços; não
deixou inflacionar, nem acabar
os produtos. Foi talvez
o único lugar do país onde
isto aconteceu. Esta carestia
foi motivada pelos efeitos
da Grande Guerra e pela desorganização
por que todo o
País passava.
José Ferreira Malaquias
merece um estudo mais
aprofundado.
Soube pela D. Lídia Malaquias,
que este seu parente,
primo de seu avô, era um
homem muito culto e de coração
generoso.
Seria interessante, estudar,
mais intimamente, todos
aqueles que contribuíram
para o sucesso de uma
cidade que ainda hoje é um
exemplo, mas que nunca
puxou pelos seus galões ou
se pôs em bicos dos pés.
Em 1914 começa a primeira
Grande Guerra. A Europa
parecia ter enlouquecido.
Portugal acompanha o
ritmo da loucura e a 14 de
Maio de 1915, alguns barcos
de guerra bombardeiam
Lisboa. Os combates são
violentíssimos e os mortos
às centenas.
O ano de 1915 foi um
ano desgraçado para o País,
como todos os da Primeira
Republica.
Falo, especialmente, nesEntroncamento,
o comboio, a terra e os homens 47
te ano, porque aqui se dá
uma tragédia provocada por
gente de passagem.
Em 1915 a fome grassava,
ainda com maior acutilância.
Por todo o País, a subida
do preço do pão saldase
em graves motins. Todos
se acusam uns aos outros.
No meio da desordem, o
Entroncamento era um oásis
de paz, de trabalho e de
entreajuda.
Em 14 de Maio dá-se
uma revolução tão violenta
contra o General Pimenta
de Castro, que os mortos e
feridos são às centenas. Os
ódios estremam-se. E não é,
que neste pacato, ordeiro e
trabalhador pequeno lugar,
se dá uma tragédia impensável?
Os factos contam-se em
poucas linhas. João Chagas
ia assumir a presidência do
Governo, mas o senador
João de Freitas, do Partido
Evolucionista, entra no
comboio, em Paialvo, vai
até à carruagem de João
Chagas e, sem dizer palavra,
dispara quatro tiros de
revólver. Deixa-o cego e
gravemente ferido. Os passageiros
desarmaram João
de Freitas. Ao ser entregue
às autoridades aqui, no Entroncamento,
é morto pelo
povo.
Passada a tragédia, tudo
volta à normalidade, vivese
o trabalho e aumenta-se
o esforço.
Enquanto uns destroem,
os outros, os mais sensatos
constroem. Os homens que
fizeram o Entroncamento
foram caldeados no bomsenso,
na sensatez, no orgulho
do que produziam,
construíam e estendiam,
neste caso, os carris.
Os assaltos são constantes
em todo o País. O Entroncamento
é gente de trabalho.
Pouco tem para ser roubado
e não consta que alguém se
atrevesse a fazê-lo.
A primeira Grande Guerra
serviu para tornar ainda
mais poupados, os que, pouco
tinham para poupar. As
dificuldades eram imensas,
mas a empresa conseguia
pagar os salários, o que não
acontecia nem com muitas
outras nem com o próprio
Estado.
A aprendizagem fez-se
com muitos sacrifícios, mas
sem nunca virar a cara ao
trabalho.
O movimento da estação
aumentou imenso. O corrupio
dos militares, de um
lado para o outro, era constante.
São aos milhares. Os
funcionários dos Caminhosde-
Ferro desdobravam-se.
Chegavam a trabalhar 16
horas.
Parecia que esta terra
lhes dava uma força sobrehumana
que ninguém conseguia
abater.
A fome grassa por todo o
lado, mas o Entroncamento
além de ter um Armazém de
Víveres e uma Cooperativa
tem o suporte das Vaginhas,
a terra mãe. Alimenta-os a
couves, batatas, cenouras,
cebolas, favas, ervilhas, tomates,
nabos, pimentos, feijão
verde e tudo o mais que
produz. A gente dos campos
é pouca e, por isso, não têm
mãos a medir.
Muitos trazem das Beiras
os enchidos que duram
por muito tempo.
Entroncamento, o comboio, a terra e os homens 49

IX

Entre 1918 e 1928, o Governo
achou por bem centralizar
alguns serviços militares.
O Entroncamento, mais
uma vez, tal como tinha
nascido, sem alarde, passou
a ser o coração de Portugal.
Por aqui passava tudo o que
era essencial para o País e
aqui também foi sedeada
uma retaguarda de protecção
nos tempos conturbados
que enlouqueceram a
Espanha com a Guerra Civil
e a Europa com as duas
Guerras Mundiais.
Aqui ficaram instalados
o Batalhão de Sapadores do
Caminho-de-ferro, a Sucursal
da Manutenção Militar,
as oficinas do Parque automóvel
Militar, o Esquadrão
de Cavalaria Motorizada, o
Depósito Geral de Material
de Guerra, o 7º Grupo de
Companhias de Administração
Militar, uma Secção
do Depósito Geral de Medicamentos
Sanitários e de
Hospitalização, a Estação
Rádio-Telegráfica, um Posto
fiscal.
Algumas destas designações
foram mudando de
nome embora o fim fosse
sempre semelhante. Este é
um mal que ainda não largámos.
Logo que fazemos
uma revolução ou trocamos
de ministros ou de directores-
gerais mudamos o nome
às coisas, mas não melhoramos
os serviços. É uma maneira
saloia de lançar poeira
nos olhos das pessoas. É
gastar dinheiro inutilmente
e que poderia ser aproveitado
em beneficio da melhoria
das condições de vida.
50 Cunha Simões
Com a vinda destes efectivos
militares, a população
do Entroncamento ficou
praticamente constituída por
ferroviários e por militares.
Isso foi muito bom. Porquê?
Porque tanto nos Caminhos-
de-Ferro como nas
Forças Armadas há ordem
e organização. Tanto num
caso como noutro, quem faz
carreira nestas Instituições,
normalmente tem o sentido
do dever e sabe como orientar
os seus passos.
O Entroncamento progrediu
e vive harmoniosa e
prosperamente porque praticamente
não existe analfabetismo.
Desde o início,
como já afirmei, a Companhia
criou escolas para os
filhos dos ferroviários, para
os próprios ferroviários e
para outros que aí quisessem
aprender. Muitas destas
pessoas foi aqui que ganharam
a vida e singraram com
orgulho por terem sabido
despir a roupa da miséria
que o mundo lhes queria
impor e vestirem o fato da
dignidade, da riqueza e da
felicidade.
Em Novembro de 1921
é inaugurado o Cine Teatro
Parque. Era uma ampla
e boa sala de espectáculos
situada onde está hoje o espelho
de água e a bordejar
o mercado municipal. José
Neves Costa, o proprietário,
Entroncamento, o comboio, a terra e os homens 51
conhecido por Zé da Loja,
também tinha estabelecimentos
de mercearia, fazendas
e alfaiataria. Foi talvez
das primeiras pessoas, em
Portugal, a saber utilizar o
marketing. Publicitava tudo
em que se metia, com grande
clareza, de modo a cativar
o comprador.
Em 1926 é inaugurado o
Bairro Camões, com a escola
que lhe confere o nome,
as confortáveis casas, com
jardim e um pequeno quintal,
sem descurar o enquadramento
com um artístico
lampião, um chafariz e a
própria entrada com sinais
ferroviários. Estes símbolos
artísticos foram destruídos,
a seguir ao 25 de Abril, por
manifesta ignorância de
quem o fez. Nem é maldade,
é ignorância. É por isso
que incitamos os jovens ao
estudo, porque o ignorante é
um triste que não se apercebe
do mal que causa a toda
a sociedade e à memória colectiva
de um País.
Se mais nada tivesse o
Entroncamento, bastava
a concepção deste Bairro
para ele merecer a visita de
52 Cunha Simões
milhares de portugueses e
estrangeiros. Os arquitectos
escolhidos foram Luís da
Cunha e Cottinelli Telmo.
Este último, com 22 anos
apenas, já tinha dado provas
da sua fabulosa capacidade
de trabalho e de inventiva
ao desenhar o Pavilhão
de Honra da Exposição do
Rio. Depois do Bairro Camões,
em 1926, Cottinelli
Telmo concebeu o Pavilhão
de Portugal na Exposição
de Sevilha de 1929, foi nomeado
Arquitecto-Chefe
da fabulosa Exposição do
Mundo Português, de 1940,
onde também projectou a
Praça do Império, a fonte
Monumental e o Monumento
aos Descobrimentos, este
em parceria com Leopoldo
de Almeida. Só o nome de
Cottinelli Telmo bastaria
para fazer meditar, e muito,
no destino a dar a este Bairro.
A partir do primeiro
quartel do século XX, o
ordenamento começa a ser
sistemático, mas vagaroso.
Até lá chegar, esta terra, mágica,
ainda tinha um longo
caminho a percorrer. Mas,
ano a ano, as indústrias,
as lojas, os cafés, os restaurantes
e as pensões vão
proliferando. É a Mercearia
Invicta, a Cesaltina Estudante,
o Tem Tudo do Raul
Esmifra, o António Roldão,
a Padaria Flor, os Agostinhos,
o Restaurante Faustino,
o Monumental, o Retiro
Azul, o Frutuoso Mendes, o
Zé dos Fósforos, o António
Silva, a Agência Progresso,
A Tipografia Silva, o restaurante
Bucelas, a Pensão
13 de Março, a ourivesaria
Entroncamento, o comboio, a terra e os homens 53
Reinaldo Silva, a ourivesaria
Batalha, a ourivesaria
Ferreira, a ourivesaria Reis
e mais uns quantos que souberam
prosperar numa terra
que parece abençoar quem
trabalha, quem lê, quem estuda,
e quem se informa. A
vida não tem segredos. Há
que arregaçar as mangas e
deitar-lhe as mãos.
Os jornais foram sempre
muito procurados. O Silvino
dos Jornais foi mesmo
homenageado pelo Rotary
Clube como prova evidente
que na sociedade todos
somos importantes desde
que saibamos ocupar com
competência os cargos que
desempenhamos.
Ninguém esquece o
Maurício, a carroça, e a pachorrenta
Atmosfera, que
transportava os garotos, as
batatas e tudo o que vinha
em pequena ou grande velocidade
para as casas particulares
ou para o comércio.
O engraxador Taxa que
nunca perdia pitada para
molestar o polícia, Zé da
Amélia, que era mais lesto
que um furão a procurar
os que faziam contrabando.
Por outro lado, o comércio,
que começava a despontar,
agradecia. O contrabando
diminuía-lhes as vendas.
Mas como diz o ditado,
Roma e Pavia não se fize54
Cunha Simões
ram num dia.
No Entroncamento nunca
foi dado um passo maior
do que a perna.
Houve um Homem que
chegou ao Entroncamento
em 1911, compreendeu as
potencialidades da terra e a
importância que o Entroncamento
representava para
todo o País. Esse Homem
foi José Duarte Coelho.
Com ele, o Entroncamento,
ganha estatuto.
O pequeno lugar enche o
peito.
A Companhia dos Caminhos-
de-ferro continua com
a política de suporte e apoio
aos seus funcionários; dálhes
condições de estabilidade.
No próprio local de
trabalho são construídas
mais habitações.
Os bairros ferroviários
crescem em qualidade, solidez
e beleza. Olhem-se para
as construções e digam-me
o que sentem. Todos têm
orgulho nas suas casas e no
seu arranjo. A escola é frequentada
por novos e velhos.
Os filhos também podem
estudar onde os pais se
encontram.
O edifício da estação dos
Entroncamento, o comboio, a terra e os homens 55
Caminhos-de-Ferro era já
imponente para a época, o
que vinha demonstrar a importância
que, tanto os poderes
instituídos como os
gestores dos Caminhos-de-
Ferro, lhe atribuíam.
Os comerciantes vêem
aqui um bom futuro apesar
da Companhia ter um armazém
de víveres para os seus
funcionários, no local onde
hoje se encontra a praça de
táxis.
Hesitantes erguem-se as
pequenas indústrias. O Entroncamento
começa a tomar
forma, ainda um pouco
desorganizada, como era
hábito nas terras do interior
onde cada um construía
a seu belo prazer e onde
os planos de ordenamento
eram incipientes, tal como
se passava um pouco por
toda a Europa. As excepções
eram muito raras.

X

Em 1923 cinco bancos
vão à falência. Ninguém
sabe o que fazer. Os pobres
são aos milhares, todos pedem
que os governem. Governem
como quiserem,
mas governem, mesmo em
ditadura. Foi o que aconteceu
a pedido do povo.
Em 28 de Maio de 1926,
o General Gomes da Costa,
derruba o Governo e começa
a governar em ditadura.
A 22 de Janeiro é confirmada
a censura à imprensa.
O País respira de alívio.
Em 1927, aqueles que vivem
do caos e da confusão
provocam mais revoltas e
mais alguns mortos. O povo
compreende que estão a fazer
dele carne para canhão
e coloca-se ao lado do Governo.
Chegou finalmente
a paz. O povo apoiou quem
se dispunha a mandar com
firmeza. O alívio foi geral.
O Entroncamento que
desde o seu primeiro carril
nunca tinha descarrilado,
viu aqui, neste tempo
de paz, e antes que alguém
se lembrasse de embrulhar
tudo, uma boa oportunidade
para estruturar e dar consistência
à terra que aos poucos
se foi desenvolvendo.
E tinha-o sempre feito com
tanto cuidado que apesar da
estação do Entroncamento
distanciar das Vaginhas
e da Ponte da Pedra, algumas
centenas de metros,
havia ainda largos campos
e muito olival pelo meio.
Umas casas erguiam-se em
redor das primeiras linhas e
outras encontravam-se dispersas
pelos lugares de passagem.
A rua 5 de Outubro
só começa a tomar forma a
partir da primeira década do
século XX.
O Entroncamento entusiasma-
me porque vejo
nele o símbolo da força, da
ponderação, do sacrifício e
da inteligência dos ferroviários.
A 25 de Agosto de 1926,
no mesmo ano da revolução
de 28 de Maio de 1926, José
Duarte Coelho, ferroviário,
e um grupo de Ferroviários
conseguem a criação
da Junta de Freguesia do
Entroncamento. O decreto
12192 gerou uma freguesia
com 800 habitantes. Foi o
primeiro grande passo para
começar o desenvolvimento
sob a condução de quem vivia
e trabalhava nesta terra.
A fixação vai agora proceder-
se a um ritmo mais
rápido.
A CP continua a privilegiar
o apoio social sem
regatear a meios. São construídos
mais bairros sociais.
As mulheres dos ferroviários
vêm para junto dos
maridos. Por muito estranho
que pareça a harmonia
prevalece sempre entre os
casais. Não consta haver divórcios.
As mulheres também
não tinham tempo para
lamentações. Se as tinham
guardavam-nas para elas.
Os afazeres ocupavam-lhes
as mãos e o pensamento. Os
homens preocupados com
os trabalhos nas linhas, na
condução dos comboios,
nas cargas e descargas não
tinham vagar para outros
devaneios. Elas na lida da
casa, no cuidar dos filhos,
no arranjo e cultivo do pequeno
quintal ajardinado e
do galinheiro, também não
se queixavam. As zangas,
que não houve, e o amor
que sempre dedicaram uns
aos outros pouparam-lhes
58 Cunha Simões
o coração e outras doenças
que muitas vezes são causadas
mais pelo pensamento
do que pelo corpo.
Os homens e mulheres
que vieram jovens para fundar
o Entroncamento ultrapassavam
e ultrapassam
com frequência os 90 anos.
Hoje ainda podemos citar
homens e mulheres com
mais de oitenta anos que
continuam à frente do seu
comércio ou das suas indústrias.
Podia nomear vários
casos como o do senhor
José Mendes Bento, como
um homem que trabalha de
manhã à noite, com ar feliz,
simpático e saudável mesmo
quando discute futebol
com os amigos que fazem
da sua Drogaria uma Tertúlia
Benfiquista, mas onde
os Sportínguistas e Portistas
aproveitam para os massacrar
sempre que o “Glorioso”
perde. Ele também
foi ferroviário e teve muito
orgulho em pertencer a uma
Companhia bem organizada
e que sempre respeitou
e incentivou os trabalhadores.
Depois da reforma não
parou.
Foi isto que fez e faz do
Entroncamento uma terra
de gente simples, inteligente,
mas que não se enfeita
com penas de pavão. Aqui
saboreia-se o prazer da vida
e do trabalho. Muitos outros,
de outras terras, nunca
o conseguirão. O dinheiro
não lhes deixa apreciar o
prazer das pequenas coisas.
Daquilo que é feita a vida
humana.
Estes seres humanos são
semelhantes a bactérias, às
bactérias do Cosmos. Estou
mesmo convencido que não
passamos de bactérias que
trabalhamos no imenso estômago
que é o Universo.
O mundo não é nada se
Entroncamento, o comboio, a terra e os homens 59
não formos saudáveis de
corpo e Espírito. O exemplo
está no infeliz, amável
e bondoso, rei D. Pedro V,
o homem que impulsionou
e se interessou profundamente
pelo desenvolvimento
deste generoso meio de
transporte que é o comboio.
O rei D. Pedro V, esbelto,
rico e culto morre aos vinte
e poucos anos tal como
morre um labrego sem vintém.
A morte é o maior signo
da igualdade entre os seres
humanos e aquela que nos
diz que só valemos pelos
nossos actos. Só por eles
nos libertamos, e só por eles
ficamos na recordação dos
vindouros.
Os ferroviários do Entroncamento
desde o início
compreenderam isso e os
gestores do processo tiveram
o exemplo dos seus
congéneres europeus, que
colocavam nos comboios e
nas vias engenheiros de fato
de macaco, exemplificando
no terreno como tudo se fazia
correctamente. Os ferroviários
compreenderam, no
terreno, que as doutorices,
os Condes, os Viscondes e
os Marqueses da altura, só o
eram se mostrassem que tinham
mais valor e mais capacidades.
Verificamos isso
até no traçado das linhas.
Aquilo que devia ser só feito
pelo interesse nacional
era, muitas vezes, condicionado
pelas conveniências
particulares. Outras vezes,
como de cada cabeça saía
sua sentença, e os poderes
instituídos queriam agradar
a todos, acabavam por
prejudicar quem queriam
defender. O Entroncamento
foi beneficiário dessa insensatez.
Ainda bem. Os seus
carris deram os melhores
frutos.

XI

O Entroncamento assentou
em bases sólidas. A convivência
entre chefes e empregados
foi sempre muito
boa.
A criação da Junta de
Freguesia foi o foral que
concedia os primeiros direitos.
A partir deste momento
tudo se torna mais simples.
Indiferente às questiúnculas
governamentais, José
Duarte Coelho dá prioridade
ao que é essencial.
Mas para manter o equilíbrio
mental, José Duarte
Coelho, não descura alguns
momentos de lazer. Num
livro sobre tauromaquia,
que o Sr. Samuel Reis está
prestes a publicar, encontrei
a faceta curiosa do Homem
que lutou denodadamente
pela dignificação do Entroncamento.
José Duarte
Coelho era um apaixonado
pela festa brava e não tinha
melhor meio para relaxar do
que discutir os momentos
mais empolgantes das corridas
a que assistia. Umas
vezes na primitiva Pastelaria
Ribatejo e outras na
Farmácia Carvalho, a qual
Entroncamento, o comboio, a terra e os homens 61
se transformava em tertúlia
Tauromáquica, numa terra
onde os doentes eram poucos
e as curas feitas à base
de papas de linhaça, ventosas
e clisteres.
Para uma comunidade
organizada é fundamental
assegurar os principais bens
de consumo a preços a que
todas as classes sociais tenham
acesso. No Entroncamento
a classe dominante
era a dos ferroviários, mas
outros se lhe juntavam sem
quaisquer diferenciações.
Uma das primeiras medidas
da Junta de Freguesia foi
a criação de um mercado
mensal de gado em 1927,
e a construção e inauguração,
em 1930, de um mercado
fechado para produtos
hortícolas, carne, peixe. Era
um espaço enorme para a
época, mas desenhado com
elegância e conforto. Hoje o
mercado deu lugar ao Centro
Cultural. É uma obra
elegante e que atrai. Ali
funcionam, neste momento,
e neste amplo espaço,
diversos serviços de entretenimento.
Junto ao mercado do
Largo da Feira Mensal de
Gados e ao Mercado coberto
foi construído
em 15 de
Novembro de
1931 um interessantíssimo
e útil Chafariz
que desseden62
Cunha Simões
tava homens e animais. Era
um projecto do Engº Henrique
Sequeira. Foi deitado
abaixo depois do 25 de Abril
sem que para isso houvesse
necessidade. Desfez-se uma
obra de arte. Foi destruída
uma memória colectiva. Todos
perdemos com o disparate.
No seu lugar costuma
estar uma roulotte de farturas.
Ainda bem que alguém
tira proveito do gravíssimo
erro cometido.
Uma das maiores carestias
do Entroncamento era a
água. Muitos ainda se recordam
da “carroça do Bexiga”
que acarretava água da Moita
para o Entroncamento. A
água era puríssima.
A Junta conhecedora desta
carência imediatamente
providencia a colocação de
fontanários em locais estratégicos
para que cada um aí
se possa abastecer. Estavam
chafarizes no largo da Estação
e no Largo do Ti Alfredo.
Com muita prudência, a
Junta de Freguesia foi ordenando
o território que tinha
de ser sacrificado para
arruamentos e construção.
Delimita e permite a urbanização
porque a área é pequena.
Imediatamente compreendeu
que algo tinha de
sacrificar para melhor benefício
da instalação da popuEntroncamento,
o comboio, a terra e os homens 63
lação que aos poucos aqui
se iria fixar. Entre o fértil
campo ou a urbanização organizada
optou-se por esta
a menos que se quisesse
colocar as pessoas umas em
cima das outras.
Elaborado o plano, as escolas
são a grande prioridade.
Precisavam-se espaços
verdes, sempre a pensar no
futuro, porque em 1926 os
espaços verdes não faltavam,
e mantiveram-se enquanto
as velhas e enternecedoras
máquinas a carvão
expeliam os fumos e poluíam.
No Entroncamento as
máquinas eram sempre
muitas; ou em reparação ou
prontas a prestar socorro a
outras que avariassem e ainda
a todas aquelas que passavam
cruzando linhas que
aqui entroncavam. O sr. J.J.
Cipriano disse-me que em
movimento estavam sempre
cinco. Duas para formação
de comboios de mercadorias,
a titular e a auxiliar da
formação, outras duas no
Cavalo. (o Cavalo é uma
elevação onde os vagões
são colocados para depois
saírem, por inércia, para as
respectivas linhas. Os vagões
eram marcados a giz
para serem distribuídos.) Na
parte da estação havia sempre
uma máquina em manobras.
Para manter estes serviços
em movimento havia
a máquina Compensadora.
Esta, por meio de apitos,
combinados, chamava a máquina
Titular para o Depósito
afim de limpar o fogo e
abastecer de carvão e água.
Havia ainda uma máquina
64 Cunha Simões
de serviço a todas as oficinas:
vagões, rodas, grande
reparação, aos quartéis, ao
depósito de materiais etc.
Só em maquinistas, fogueiros,
agulheiros e engatadores,
era muita gente. Agora
juntemos-lhe todo o restante
pessoal da estação e diferentes
serviços. Muitas vezes
chegavam a ultrapassar
as cinco mil pessoas.
Que magnifica estação a
do Entroncamento! Parecia
mais uma colmeia. O movimento
era intenso, o trabalho
muitíssimo, mas não
havia um queixume, havia
ordem, havia o prazer do
dever cumprido, havia ainda
a certeza que o ordenado
estava certo, que chegava
para pagar a água, a luz e
para as despesas do dia a
dia e ainda sobravam umas
migalhas para pôr de lado.
Os filhos também estavam
protegidos. A escola era a
grande riqueza.
Não há memória de um
só, filho de ferroviário, ser
analfabeto, embora, os pais
o fossem, quando entraram
para os Caminhos-de-Ferro,
como é o caso do senhor
Cândido da Silva de quem
iremos falar mais à frente.
O seu lema era: defender
a empresa, fazendo o que
a cada um estava determinado
e estimando os passageiros,
mas evitando que
alguém danificasse, fosse o
que fosse.
Em 5 de Dezembro de
1928 é criado o União que
além do futebol se destacou
no ciclismo, mas que hoje
tem o seu forte no hóquei
em patins.
Entroncamento, o comboio, a terra e os homens 65
Em 25 de Maio de 1931
nasce o Grupo Desportivo
dos Ferroviários, com o
nome de Grupo Desportivo
das Oficinas da C.P. As suas
actividades foram múltiplas.
Torneios de Futebol
entre Grupos oficinais da
C.P. Columbofilia, Ténis de
Mesa, Basquetebol. Reuniões
de convívio entre sócios
e não sócios, festas de Verão.
O Parafuso, a SCAFA, o
União, o Grupo Desportivo
dos Ferroviários e o Clube
Amador Desportos do Entroncamento
foram aglutinadores
de todos quantos
viviam no Entroncamento.
66 Cunha Simões
O Entroncamento ainda
não tinha 6 mil habitantes
quando é elevado a Vila pelo
decreto-lei 22010 de 21 de
Dezembro de 1932, mas já
possuía 1185 prédios urbanos,
a maioria só de rés-dochão,
como eram os prédios
naquela época, mas outros
já têm primeiro andar e a
data em que foram construídos;
inscrita na cimalha ou
nos portões das casas. Ainda
há alguns. Procure e vai
ver que encontra. Comece
pela Rua Latino Coelho.
A melhor maneira de
descobrir esta cidade é
olhando-a. No final, para tirar
dúvidas e colocar questões
vá até à bem recheada
e bem organizada Biblioteca
Municipal, que funciona
no prédio onde está a Junta

XII

de Freguesia de São João
Baptista. Aí encontra livros
e jornais sobre o Entroncamento.
O Entroncamento continua
a crescer.
Há gente que vem de
todo o lado para aqui se
estabelecer. Muitos ainda
se lembram do Perningó.
O Perningó era alcunha de
um simpático espanhol, que
aqui fez fortuna, com um
chupa-chupa, muitíssimo
bom, e que para o comprar,
a criançada fazia bicha. O
Perningó, apesar do sucesso,
queria sempre vender
mais e não se cansava de
apregoar a especialidade,
dizendo bem alto: “chora,
chora, minino, chora, que o
Perningó se vai embora”.
As casas do Caminho-de-
Ferro foram sempre bem desenhadas
e construídas com
bons materiais, tão bons que
ainda hoje resistem ao tempo
sem que o caruncho as
corroa. Verifiquem-se as escadas
e os soalhos das ainda
existentes. São os mesmos
de há quase um século. Parece
que foram construídas
nos dias de hoje.
A elevação a Vila não
deslumbrou nem o Presidente
da Junta nem a população.
Agradeceram o
título, mas a sua ambição
era outra. Eles sabiam que o
verdadeiro progresso não se
faz dando grandes saltos. É
preciso ponderar tudo com
muito cuidado. Observem a
Natureza. Levou milhões de
anos a criar, a desenvolver e
a aperfeiçoar o ser humano,
mesmo assim ainda não es68
Cunha Simões
tamos totalmente afinados.
Se estivéssemos não havia
nem pobres nem guerras.
A perseveração da dignidade
das pessoas não está
só no conversar e no dormir
sossegadamente, está na
qualidade de vida.
A Junta de Freguesia vai
fazendo contas e acolhendo
todos os que aqui se desejam
fixar. A grande maioria,
como já se referiu, eram
ferroviários, militares e respectivas
famílias.
O local privilegiado onde
o Entroncamento se encontra
e apoiado no entroncamento
de linhas que aqui se
cruzam levam a que a administração
dos Caminhos-de-
Ferro concentre, neste local,
muitas instalações para
material de substituição,
reparação e construção. Os
operários especializados
que aqui trabalharam e trabalham
são do melhor que
há na Europa.
O Entroncamento torna-
se a par com o Barreiro
nos dois maiores centros de
concentração do operariado
Português.
O quantitativo de impostos
e contribuições pagas ao
Estado, supera largamente
os da singela sede de Concelho,
ou seja de Vila Nova
da Barquinha, como o de
muitos outros concelhos do
país. Mas entre a elevação a
Vila e o finalmente alcançado
e abençoado Concelho, a
Europa encontra-se a ferro
e fogo.
Apesar dos anos conturbados
por que o País está
a passar, José Duarte Coelho
tenta esticar os parcos
recursos. Pede aqui e ali;
aproveita os seus conhecimentos
e a boa vontade
dos grandes proprietários.
As casas Sommer e Juncal.
É assim que nasce o jardim
Pereira Caldas, se começam
a rasgar ruas e a própria
Igreja consegue largos
terrenos para a construção
da Igreja paroquial e dos
serviços sociais adjacentes.
Por esta altura e para obviar
quaisquer carências é criada
a Casa de Protecção aos
Indigentes na sequência da
ideia da duquesa de Palmela
que, em Lisboa, tinha posto
a funcionar seis cozinhas
semelhantes. No Entroncamento
talvez não se justificasse,
mas José Duarte
Coelho, não quis correr riscos.
Pelas informações que
obtive, a Casa de Protecção
aos Indigentes funcionou, a
maior parte do tempo, como
refeitório de quem não queria
fazer as refeições em
casa.
A Espanha, que há muito
tempo fervilhava de agitação,
em 1936 explode e
entra numa guerra civil tão
sanguinária que excedeu
em barbaridade tudo o que
a nossa imaginação possa
abarcar. A guerra civil Espanhola
durou até 1939.
O Governo fez tremendos
esforços para evitar
que o povo Português fosse
contaminado por tanta insanidade.
Tínhamos saído há
pouco tempo da Primeira
República, de triste memória,
não por ser República,
mas pelos disparates que
foram cometidos e que prejudicaram
sempre os mais
desfavorecidos.
A guerra civil de Espanha
fez com que Portugal
fosse avançando com muitas
cautelas. Todos sabemos
que nestas épocas de loucu70
Cunha Simões
ra colectiva tudo é possível.
Às vezes bastam meia dúzia
para destruir um país. Os demagogos
são capazes de inventar
palavras de encantar
o mais sensato. Neste momento
a Espanha está desfeita
em crimes horrendos.
Alguns políticos espanhóis,
para recuperar alguma coisa,
num país onde já falta
tudo menos balas e carne
para canhão pensam aproveitar
este momento para
invadir Portugal. O Governo
Português sabe de todos
estes movimentos através
dos Serviços de Segurança
do Estado, chamados, na
época, PVDE, Polícia de
Vigilância e Defesa do Estado,
a qual só em Outubro
de 1946 mudou o nome para
PIDE, Polícia Internacional
e de Defesa do Estado.
Salazar para evitar graves
consequências tem de
fazer um jogo diplomático
quase ao minuto.
A Espanha não nos oferecia
quaisquer garantias
de segurança apesar de alguns
anos antes, em 1869,
ter convidado D. Fernando,
marido de D. Maria II e pai
de D. Pedro V e de D. Luís,
para ser rei de Espanha. Ouvidos
os conselheiros reais,
D. Fernando não aceitou.
Ainda se tomava muito à letra
a sentença que dizia: “de
Espanha, nem bom vento,
nem bom casamento.” Hoje,
a Espanha está muito diferente
e o ditado deixou de
fazer qualquer sentido. Portugal
e Espanha fazem parte
de um País mais abrangente:
a União Europeia. O bemestar
ou as dificuldades de
um país reflectem-se em todos
os outros.
O Entroncamento era um
local de paz e de trabalho,
merecedor de passar a concelho.
A decisão foi sendo
protelada à espera do momento
certo.
Quando acaba a guerra
civil espanhola e se pensava
que o fogo na casa do
vizinho estava apagado e o
Governo Português poderia
implementar os Planos
de Fomento, rebenta mais
uma carnificina, e esta com
a agravante de se estender a
todos os países da Europa,
com a excepção de Portugal
e Espanha.
Salazar, várias vezes
avisou Franco do erro que
cometeria se aderisse aos
planos de Hitler e Mussolini
que continuamente insistiam
com Franco para
entrar, com larga vantagem,
para o seu lado. Com os
conselhos de Salazar ou sem
eles, a verdade é que Franco
evitou entrar em mais um
vergonhoso extermínio, em
que as vítimas e os culpados
foram os próprios seres humanos.
Quem compulsar os volumes,
do Ministério dos
Negócios Estrangeiros, respeitantes
aos “Dez Anos de
Política Externa” entre 1936
– 1947 ficará elucidado sobre
o esforço Português. A
correspondência é diária e
intensa entre Oliveira Salazar
e os seus embaixadores
na Europa e no resto do
mundo onde a guerra tinha
marcado presença; através
destes documentos podemos
compreender melhor muitas
atitudes do Governo.
Como a Segunda Guerra
Mundial se desenrola entre
1939 e 1945, pelo Entroncamento
continuava a passar
de tudo e em grandes
quantidades; desde soldados
que se movimentavam
de um lado para o outro, a
mercadorias que alimentavam
Lisboa e outras grandes
cidades.
72 Cunha Simões
Meto aqui uma pequena
nota. Um dos homens que
mais apreciava o comboio
era o Padre Cruz. Pouco
tempo depois do Padre Martinho
Mourão tomar conta
da Paróquia da Sagrada Família,
volta que não volta,
o Padre Cruz aqui aparecia.
Dizia ele que vinha retemperar
forças. Na verdade
viveu até aos 89, sempre lúcido
e bem disposto.
O Entroncamento desenvolve-
se a olhos vistos.
Passados alguns meses
depois de fi ndar este execrável
e vergonhoso confl ito,
próprio de humanóides e
não dos seres humanos com
cabeça, pensamento e fala,
nasce o Concelho do Entroncamento.
Vejamos os argumentos
com que Duarte Coelho e os
seus pares defendem a sua
petição.
Sr. Ministro do Interior
Excelência
A Junta de Freguesia
do Entroncamento trairia a
missão que lhe foi confi ada
desde o advento da Revolução
Nacional e não obedeceria
a um imperativo categórico
de consciência se
não fi zesse chegar até junto
dos poderes públicos competentes
o mais justifi cado e
vibrante apelo, fundado em
múltiplas razões de ordem
económica, administrativa,
social e política, e até moral,
Entroncamento, o comboio, a terra e os homens 73
no sentido de pedir a melhor
atenção e interesse para as
realidades que impõem a
necessidade imperiosa de
uma revisão urgente da sua
situação administrativa, em
ordem a ser criado um novo
concelho que abranja, quando
não mais, a área que hoje
constitui a referida freguesia
ou ainda, pelo menos, a
mudança da actual sede de
concelho – Vila Nova da
Barquinha – para a Vila do
Entroncamento.
Têm os membros desta
Junta de Freguesia clara noção
das responsabilidades
que sobre si impendem ao
vir solicitar, embora baseada
em dados concretos e
convincentes, que não podem
deixar margem de dúvidas
no espírito de quem
quer que seja, a satisfação
de uma medida que reputam,
em verdade, mais do
que uma natural e legítima
aspiração do povo Entroncamentense,
uma necessidade
de ordem administrativa,
visando o interesse
superior dos povos e o
progresso da Nação, num
reflexo parcial do desenvolvimento
de uma localidade
que em decénios se tornou,
pelas boas provas que de si
tem sabido dar um ritmo de
expansão impressionante,
absolutamente merecedora
da situação que hoje pede,
por intermédio dos seus directos
representantes, - esta
Junta de Freguesia – que lhe
seja reconhecida e concedida,
pois trata-se de uma Vila
com notável incremento industrial
e comercial, servida
pelas melhoras vias de
comunicação do país e dotada
de instalações urbanas
de água e luz, o que não sucede
em relação à água, na
própria sede do concelho!
Não são razões de mera
74 Cunha Simões
ordem sentimental ou de
condenável e inaceitável
excesso de bairrismo que
nos leva até junto das esferas
superiores solicitando
a criação de um concelho
ou uma mudança da actual
sede do concelho de Vila
Nova da Barquinha para
esta Vila.
Bem mais eloquentemente
do que nós o pudéssemos
fazer, do que os nossos
desejos legítimos, falam
expressamente os números
que se apresentam, cuja
análise e estudo levarão
inevitavelmente, com o poder
indestrutível das coisas
evidentes, aqueles que terão
de informar o respectivo
processo e os que em última
instância o resolverão dando
o seu – “veredictum”,
assim o julgamos com honestidade,
à convicção de
que se trata de um acto de
necessária justiça que urge
ser praticado a bem do interesse
geral e não só do restrito
interesse local, embora
também de considerar.
Não enfastiamos com
uma descrição pormenorizada
do que tem sido a acção
da Junta após o advento
do 28 de Maio, data a seguir
à qual e até hoje tomámos
conta dos seus destinos,
ininterruptamente, com o
fito único de elevar esta terra
à categoria a que tem jus
seu valor e importância no
concerto da Nação.
Mas, pela própria natureza
do que se refere, não podemos
eximir-nos a traçar,
ainda que a tintas ligeiras, o
actual panorama da Vila do
Entroncamento sob vários
aspectos que ao assunto em
causa possam directamente
interessar, baseando e fortalecendo
o pedido apresentado.
Depois da Vila do BarEntroncamento,
o comboio, a terra e os homens 75
reiro é o Entroncamento o
2º meio operário português,
como é do conhecimento
geral, representando o operariado,
grande parte dele
especializado e técnico seguramente
mais de metade
da sua população, a qual é
constituída actualmente por
8.300 habitantes enquanto
que a sede do concelho não
chega a atingir os 1.300, o
que nos dá uma percentagem
de 56,58% para esta
Vila e 8,55% para a Vila da
Barquinha!!!
Com mais de metade da
população total do concelho
não é de estranhar que a Freguesia
do Entroncamento,
em matéria eleitoral, possa
só por si decidir o resultado
de quaisquer eleições na
respectiva circunscrição.
Nos últimos recenseamentos
(eleitores das Juntas de
Freguesia e do Poder Legislativo)
achavam-se inscritos
4237 cidadãos. Pois bem:
desse número, 2210 pertenciam
a esta Freguesia! A
Barquinha, sede do Concelho,
dá-nos 474 eleitores!...
Percentagens: Entroncamento
52,15% - Barquinha
11,18%!
Chega a parecer inverosímil,
de facto, mas é verdade,
em todo o seu realismo!
De 1930 até à data, a população
do Entroncamento
aumentou 5.000 habitantes.
(...)
Os elementos que deixamos
expressos podem verificar-
se nos diferentes mapas
e contas que juntamos
para completa apreciação
de todos quantos terão de
informar e resolver doutamente
este assunto.
Ao povo do Entroncamento
tanto lhe importa
uma solução ou outra, na
certeza antecipada em que
está de que a JUSTIÇA será
76 Cunha Simões
praticada, confiando plenamente
na elevada consciência
e alto sentido das
realidades políticas, sociais
e económicas do momento
presente, daqueles a quem
está confiada a nobre e ingente
tarefa de zelar superiormente
pelos interesses
morais e materiais do país.
A Vila do Entroncamento
reúne já todas as condições
indispensáveis e necessárias,
seja qual for o prisma
por que se encare, para poder
constituir a sede de um
Concelho, de um bom Concelho!
(...)
As fotografias que vão a
ilustrar esta petição podem
ajudar a avaliar da veracidade
e merecimento das
afirmações produzidas.
A não efectivação desse
“desideratum” acarretará
prejuízos morais e materiais
difíceis de prever em toda a
sua extensão e alcance, forçando
ao desânimo, à inanição
e até possível perda,
num futuro mais ou menos
próximo, da obra executada
até agora à custa de sacrifícios
de toda a espécie com o
precioso auxílio do Estado
Novo Corporativo, cujas directrizes
nos orgulhamos de
ter seguido desde a primeira
hora e sabido concretizar,
com a boa vontade e compreensão
de todo o povo da
freguesia, que sempre, nos
deu o seu desinteressado
concurso e apoio, nas realizações
práticas levadas a
efeito e que neste momento
se impõem à evidência
como dos melhores e mais
fortes argumentos para o
que vimos impetrar:
A criação de um Concelho
ou a mudança da actual
sede de concelho de Vila
Nova da Barquinha para a
Vila do Entroncamento.
Entroncamento, o comboio, a terra e os homens 77
O Povo e a Junta de Freguesia
do Entroncamento
Vos agradecerão esse acto
de JUSTIÇA!
Entroncamento, Maio de
1945
A Junta de Freguesia
José Duarte Coelho
António Picciochi Garcia
Frutuoso Mendes
O Concelho do Entroncamento
é criado pelo decreto-
lei nº 35184 de 24 de
Novembro de 1945. A população
residente abrange
já quase 9 mil almas, mas
faltam-lhe água em quantidade
e esgotos, recolha organizada
de lixo, pavimentação
de ruas, distribuição
de electricidade a muitas
habitações que ainda não
possuíam.
Com a elevação a concelho
e com a disponibilidade
de verbas que a edilidade
passou a ter, tudo seria mais
fácil.

XIII

Esta terra é fruto de ferroviários.
Os das Vaginhas trocaram,
desde início, a enxada
pela picareta, pela oficina
das rodas ou pelo assentamento
dos carris. Houve
famílias cujos cabeças de
casal trabalhavam na Companhia
enquanto as mulheres
tratavam das hortas.
O Senhor Manuel Bandeja,
hoje com 81 anos, tinha
pai e tio a trabalhar para
a C.P. Afirmou-me que nas
Vaginhas não devia haver
ninguém que não tivesse
um familiar a trabalhar na
C.P.
O senhor Cândido da Silva
tem 86 anos e muitas recordações.
Nasceu no Malhadal,
São Tiago de Montalegre,
Sardoal. Entrou
para a CP em 1942 como
carregador suplementar.
Ganhava 9$00 por dia, cerca
de € 0,045, nos dias de
hoje. Mas não ganhava nas
folgas nem quando faltava.
O que nunca aconteceu.
Apesar de ser pouco, sentiase
felicíssimo. Nunca tinha
ganho tanto e tão certo.
O trabalho não lhe metia
medo; fazia cargas e descargas,
ajudava nas manobras
dos comboios. Completou a
sua felicidade em 1943. Casou
no Entroncamento.
A sua assiduidade e empenho
são compensados
com um pequeno salto. É
nomeado carregador do
quadro e entra para o serviço
de trens como guarda-freio.
Descarrega os volumes dos
vagões e guarnece o freio.
Quando o maquinista pedia
freio apertava. Quando
pedia para alargar alargava.
Tudo funcionava por apitos.
Entroncamento, o comboio, a terra e os homens 79
Um apito prolongado desapertava,
dois apitos prolongados,
apertava.
O senhor Cândido sentia-
se feliz.
À sua volta trabalho. Coisa
que não lhe metia medo e
lhe deu a energia para correr
os anos sem quaisquer
doenças.
Em 1943 quando o senhor
Cândido começa a saborear
o sol desta laboriosa
terra, ela já começa a dar
frutos.
O núcleo de trabalho da
CP tem um escol de gente
especializada. As suas oficinas
de reparação e material
circulante têm operários
com capacidades extraordinárias.
Alguns são
semianalfabetos, mas a CP
oferece-lhes imediatamente
condições para estudar.
Eles aproveitam. A maioria
reformam-se todos em lugares
de chefia, o que demonstra
o seu valor, a sua
vontade e que são o orgulho
do povo Português.
Continuemos com o senhor
Cândido, para darmos
o exemplo vivo do homem
Português e das suas aptidões
quando enquadrado
em estruturas fiáveis, de boa
gestão e de respeito e admiração
por quem trabalha.
O senhor Cândido, como
guarda-freio, além do ordenado
ganhava as deslocações,
o percurso e as horas.
O trabalho não lhe metia
medo. Respeitava as ordens
e dava sugestões.
O senhor Cândido da
Silva entrou para os Caminhos-
de-Ferro em 1942,
precisamente no ano em
que há um surto de greves
por falta de bens essenciais,
aumento dos preços e ausência
de liberdade sindical.
No Entroncamento tudo se
manteve calmo. Muitos dos
80 Cunha Simões
trabalhadores ainda tinham
apanhado os últimos tempos
da Primeira República e sofrido
na carne os desvarios
dos políticos. Conseguiram
sempre ultrapassar todas as
dificuldades com muita inteligência.
Eles sabiam que
estavam em plena guerra e
que eram necessários bastantes
sacrifícios.
O Sr. Cândido quando
entrou para os Caminhosde-
Ferro mal sabia escrever
o nome e ler algumas letras,
daquelas do tamanho de um
comboio. E sabia-as soletrar
porque um dia contou
a uma tia que a maior tristeza
que ele tinha era não
saber ler. A mãe morreu-lhe
quando ele andava pelos 4
anos. Ficou entregue à vida.
Passou muita fome. A sua
história dava um romance
onde a força de vontade e
a capacidade de resistência
do ser humano superam
tudo, apesar das maiores e
mais incríveis e espantosas
adversidades.
A tia do senhor Cândido
ficou a matutar naquilo que
ele lhe disse. Um dia apanhou
uma perdiz que vendeu
por vinte e cinco tostões,
pouco mais que um cêntimo
e 25 centésimos. Deu-lhe
dez tostões, meio cêntimo
hoje. O senhor Cândido, entregou
esta fortuna a um rapaz
que lhe ensinou a fazer
o nome e a ler as tais letras
grandes com que mais tarde
entraria para os Caminhosde-
Ferro como quem entra
para o paraíso.
Em 1943, o senhor Cândido
casa. Quem casa quer
casa e arrenda uma por 30
escudos por mês, hoje equivalente
a 15 cêntimos. Paga
de água 8 escudos, hoje
equivalente a 4 cêntimos.
A luz só a do petróleo. Luz
eléctrica não tinha, era luxo
que Lisboa só viu luzir em
1876 e só em Janeiro de
1902 se espalhou por quase
toda a cidade. Na província,
a maior parte das populações
até 1955, ainda gastavam
petróleo e velas de
sebo.
O senhor Cândido da
Silva consciente que só o
conhecimento através da
leitura o poderia fazer progredir
agarrou-se aos livros,
foi para a escola, tirou a terceira
classe aos 26 anos e
a quarta aos 27, na Escola
Camões.
Tinha entrado para os
Caminhos-de-Ferro aos 23,
casara aos 24 e ilustrara-se
aos 26 e 27 anos.
Os testemunhos são muitos
e mostram bem a qualidade
da gente, das mais
variadas proveniências, que
trabalharam na CP e que
aqui ficaram e tornaram o
Entroncamento uma das terras
mais prósperas do País.
O sr. Luís da Conceição
Inácio que subiu, a pulso,
de servente a maquinista
técnico diz, com a alegria a
saltar-lhe dos olhos, apesar
dos seus 77 anos. “O meu
gosto foi sempre servir a
CP. Nós trabalhávamos com
amor ao trabalho”. Quando
veio para o Entroncamento
e foi morar no final da Rua
D. Afonso Henriques, ainda
havia o Lagar do Miranda,
os Secadores de Pimentão e
a Fábrica de Colorau.
O Sr. Manuel Rosa Oliveira
foi Promotor de Segurança
na CP. Sempre sentiu
prazer no que fazia e isso
82 Cunha Simões
fez que tudo corresse sempre
sem problemas.
O sr. Manuel Ferreira Tavares,
que foi factor declara,
emocionado, que gostou
muito de ser ferroviário.
“Foi uma vida cheia e vivida
com muito prazer”.
O sr. Albino Gameiro
Pedro foi serralheiro de máquinas,
no sector de manutenção.
Era um trabalho que
dava prazer e todos queriam
saber sempre mais. “Tínhamos
gosto no que fazíamos”.
O sr. Manuel Tavares
Reis disse-me também que
gostava muito de trabalhar
na C.P “Tudo tinha opinião
do que fazia” que é o mesmo
que dizer: todos entendiam
o que estavam a fazer.
“Fazia sempre o serviço
com agrado. O chefe explicava
o que queria, mandava
fazer e fazia-se. Havia uma
orientação. Havia quem
mandasse e dirigisse. Hoje
ninguém sabe quem manda
porque são muitos a mandar
e cada um manda à sua maneira.
Alguns até nem mandam
nada porque nem para
eles sabem”.
“Depois do 25 de Abril,
o dinheiro foi mais, mas o
gosto foi menos porque, às
vezes, a confusão era muita.”
O Sr. Manuel Dias Costa
trabalhou nas oficinas com
compressores, bombas de
vácuo, de água, de óleo,
com radiadores, ventiladores.
Trabalho de operário
qualificado. A CP era a sua
vida.
O Sr. Manuel Pires Sequeira,
nasceu no Entroncamento
há 64 anos, trabalhou
na CP como serralheiro e
operador de empilhadoras
falou-me do prazer que teve
em executar sempre bem o
seu trabalho. “Era raro anEntroncamento,
o comboio, a terra e os homens 83
dar aborrecido porque o trabalho
até nos distraía.”
O sr. Américo Marcelino
Leote, hoje com 80 anos,
trabalhava em cofragem e
sempre gostou muito do trabalho.
Diz que aqueles que
estão sempre descontentes
deviam ter um empregado
para saber quanto custa a
vida a cada um.
O sr. José da Silva Graça,
entrou na CP como
aprendiz e saiu de lá como
contramestre de Oficinas na
reparação de máquinas. Entrou
para a CP em 1946 para
a Escola de Aprendizes que
funcionava no edifício da
Central Eléctrica, que ainda
hoje existe e é um belo
exemplar dos princípios do
século XX. A CP foi sempre
a sua casa. “Era uma
família enorme, mas toda
unida. A colaboração entre
uns e outros era muito grande.
Havia respeito. Nunca
medo. O operário se não
sabia perguntava e o chefe
explicava-lhe, detalhadamente,
o que era preciso fazer.
Da CP saíram técnicos
qualificadíssimos.”
O Sr. José António Bispo
esteve na revisão de material,
passou às carruagens
e terminou na reparação e
manutenção de baterias.
Disse-me: “adorava trabalhar
na CP porque além de
gostar muito do que fazia,
a CP deu sempre garantias
de segurança. E, parecendo
que não, isso conta.”
O Sr. António Mendes
Ferreira trabalhou no armazém
de peças, depois de
ter um acidente de trabalho
que não o deixou seguir outros
voos. Apesar do que lhe
aconteceu gostou sempre de
trabalhar na CP.
O Sr. Vasco da Silva
Amaro trabalhou na Catenária.
Gostou do serviço
84 Cunha Simões
mas num desabafo disseme:
“antigamente as pessoas
eram responsabilizadas
pelos seus actos e isso fazia
de nós mais conscientes do
nosso valor e dos nossos
propósitos. Havia mais prazer
no que realizávamos.
Sentíamos que éramos alguém.”
O sr. João Luís Paulino
viu crescer o concelho.
Deu-lhe vapor. A sua função
era alimentar a fonte.
A fonte eram as cargas
e descargas, as linhas, os
comboios, as locomotivas
a carvão até atingir o posto
de inspector Regional. Subida
a pulso, muito esforço,
muita genica, muita cabeça,
mas sempre consciente do
dever cumprido.
Segundo o sr. João Paulino,
assim como de todos
aqueles com quem contactei,
a C.P fazia parte da família.
“Toda a gente trabalhava
com gosto. Na C.P as
pessoas iam para onde a cabeça
lhes pendia. A subida
de posto ou a mudança de
serviço dependia da capacidade
e da vontade.” A ele
nunca lhe faltou nem uma
nem outra. Não regateou
sacrifícios nem honrarias.
O seu brasão chamou-se
trabalho e bem servir. Da
sua casa e da sua família fazia
parte integrante a C.P. O
Entroncamento foi o lugar
escolhido para viver, pagar
os impostos e esperar, calmamente,
o destino eterno.
Sabe que no Entroncamento
usufrui da qualidade de vida
que a cidade oferece e sente
também que contribuiu para
que a grande riqueza desta
terra, o comboio, continuasse
a produzir frutos.
O sr. Manuel Luís, também
conhecido pelo engenhocas,
tem 84 anos de boa
disposição e imensas históEntroncamento,
o comboio, a terra e os homens 85
rias. Foi ferreiro em Valhascos,
Sardoal. Na CP correu
os postos iniciais, passou
a serralheiro, a serralheiro
mecânico, operador de ultra
sons e reformou-se como
Chefe de Brigada. Acha que
tem esta idade e esta genica
por ter sempre gostado
de trabalhar na CP e de se
deslocar sempre de bicicleta.
O trabalho acrescentoulhe
anos de vida e prazer de
viver.
O Sr. Henrique Torres
Pina entrou na CP em 1948,
como operário torneiro. Foi
subindo a pulso até chegar
a contramestre, concorreu,
por convite, ao Departamento
de Aprovisionamento,
como inspector
de qualidade de materiais,
que consistia em frequentar
fábricas fornecedoras
da CP, tanto no País como
no estrangeiro para assistir
aos vários ensaios impostos
pelo UIC. Ensaios destrutivos
(tracção, choque, dobragem,
resiliência, dureza). E
não destrutivos (ultra sons).
Gostou sempre de trabalhar
na CP.
O sr. José Joaquim Cipriano,
nascido em 16 de
Fevereiro de 1923, continua
rijo e com uma memória
prodigiosa. O seu bisavô
foi mestre Alfaro, mestre da
Oficina, pessoa ainda hoje
muito falada devido ao seu
saber e profissionalismo.
Um dos filhos, também ferroviário,
Olíndio da Silva
Alfaro era avô do sr. Cipriano.
A Companhia Portuguesa
está-lhes no sangue. O
sr. José Joaquim Cipriano
entrou para a CP como serralheiro
de sexta. Ganhava
14$40, o que equivale, nos
nossos dias, a 7 cêntimos.
Foi reformado como Inspector
de Tracção. O amor
pela CP continua toda a
86 Cunha Simões
vida. Tem em casa um interessante
museu ferroviário
com que mata a saudade de
uma vida cheia de trabalho
e de satisfação pelo dever
cumprido.
O Sr. Manuel José Sequeira
Anita já apanhou a
CP depois do 25 de Abril.
Tinha regressado de França
cheio de vontade para dar o
melhor pelo seu País. Mas
achou que houve anos de
estagnação. Achava que na
CP se tinha deixado de dar
rendimento. A chefia não
dava luta. Parecia que tinha
medo de mandar. Ficavam
meses à espera de material
para reparação quando em
toda a Europa, meter material
novo ficava mais barato
e poupava-se tempo. Suspirando,
desabafou: “não há
aprendizagem sem disciplina”.
O Sr. Deuclides Pedroso
Ferreira foi Topógrafo da
CP, fez-me uma descrição,
ao pormenor, das ruas e do
crescimento deste lugar encantatório.
O País encolheu em tamanho,
mas os homens e
as mulheres portuguesas
sabem quanto valem e que
podem atingir todo o sucesso
que pretenderem se nunca
vergarem, se estudarem
e mandarem os filhos estudar.
Os portugueses são feitos
desta fibra. Amam e respeitam
quem os trata bem, lhes
exige trabalho, mas os compensam
pela sua dedicação,
saber e profissionalismo. A
CP tem sido um exemplo.
Deslumbrar o mundo
através da inteligência, da
imaginação, do saber e do
trabalho é o destino dos
portugueses.

XIV

Este livro tenta ligar o
Entroncamento à história
do momento em que ele se
desenvolve, e ver que essa
história só pode ser contada
através dos verdadeiros heróis
que são os trabalhadores,
neste caso os ferroviários.
Pena temos nós de não
poder inscrever o nome de
todos esses heróis que são
um verdadeiro exemplo de
força de vontade, inteligência
e amor ao trabalho.
O Entroncamento concelho,
também ele ganhou,
por mérito e com muito esforço
o direito ao amor de
todos aqueles que aqui habitam.
Muitos, muitíssimos
confundem-se com a terra.
No Entroncamento existiam
umas 16 oficinas com
grandes contramestres, gente
dedicada, com gosto pelo
trabalho. Eles próprios ficavam
deslumbrados com
o que faziam e que nunca
tinham pensado ser capazes
de fazer. Afinal, as suas capacidades
eram respeitadas,
louvadas e admiradas pelos
superiores. Muitos dos contramestres
tinham aprendido
tudo quanto sabiam na CP
e acabaram quase todos no
topo da carreira. Ninguém
os impediu de subir desde
que mostrassem aptidão e
interesse pelo trabalho que
lhes estava confiado.
A escola de aprendizagem
onde começaram era
superior a uma universidade.
Uma universidade que
aceitava homens com poucas
letras, mas muita habilidade
e muita vontade. Dali
saíam verdadeiros especialistas
que montavam e desmontavam
totalmente uma
88 Cunha Simões
locomotiva a carvão, lhe
torneavam os eixos, frezavam,
moldavam. Faziam de
tudo. Muitos trabalhavam e
estudavam para fazer o exame
da terceira e quarta classe.
Outros continuavam os
estudos porque descobriam
que a sua inteligência era
igual à dos superiores, bastava-
lhes afiná-la.
O sentido da responsabilidade
e o orgulho de proceder
bem era o seu código de
honra.
A quase totalidade destes
homens não teve lugar na
história. Não andaram a matar
outros, não destruíram,
não ganharam medalhas
por actos heróicos de grande
destruição. Estes homens
construíram, desenvolveram,
fizeram o progresso do
Entroncamento, enriqueceram
Portugal, mas ninguém
se lembrou de os mencionar
como exemplo.
O Entroncamento manteve,
respeitou e respeita todos
estes homens que lutaram
pela paz e pela comodidade
dos outros. Eles nunca
se recusaram ao trabalho
e aos sacrifícios para bem
servir os seus concidadãos.
A C.P foi a única que os
acarinhou: compensou-os,
pagou-lhes. Eles, sempre
muito poupados, fugiram
das dificuldades, construíram
as suas casas e prepararam
a velhice.
A estes homens só lhes
faltou, e eles nunca o reivindicaram,
o reconhecimento
que merecem. É tempo de
o fazer, naturalmente, misturando
esta terra e um ou
outro trabalhador, que com
o seu trabalho, no entroncamento
inicial, ao Entroncamento
trouxesse e levasse
riqueza e a espalhasse pelo
País fora, mas sempre aqui
enterrando as raízes.
A Câmara Municipal do
Entroncamento pensou em
homenagear estes construtores
de pontos de ligação
e desta cidade construindo
um monumento ao trabalhador
ferroviário e colocandoo
no coração da cidade. Na
Praça da República. Nada
de mais justo.
Se compulsarem todos
os números da Revista da
Associação de Amigos do
Museu Nacional Ferroviário,
“O Foguete” encontrarão
aí histórias fabulosas
de homens e máquinas. O
entendimento é perfeito e a
naturalidade como são relatados
os factos aumenta
o gosto por esta terra e pelos
homens que lhe deram
vida.

XV

Em 1946, o concelho do
Entroncamento já tem 8 mil
habitantes e 3 mil fogos.
O comércio e indústria
têm um desenvolvimento
rápido. Além dos ferroviários,
o Entroncamento
continua a ser um lugar de
passagem para milhares de
militares, o que dá à terra
um movimento inusitado.
Aparece por esta época o
Colégio Mouzinho de Albuquerque
onde são ministrados
o Curso Industrial de 5
anos. O Curso Comercial de
4 anos e o Curso Geral dos
Liceus de 7 anos. O Curso
Industrial era essencialmente
prático. Os alunos saíam
muitíssimo bem preparados.
Os alicerces, quase diria,
os carris, em que o Presidente
da Junta de Freguesia,
José Duarte Coelho, tinha
começado a consolidar
o pequeno lugarejo tinham
dado tantos e tão saborosos
rendimentos que todo o País
conhecia o Entroncamento,
mesmo sem por aqui terem
passado.
Na passagem de testemunho,
quando o concelho foi
criado, José Duarte Coelho,
entregou o honroso cargo
de Presidente de Câmara ao
empresário Jacinto Marques
Agostinho.
Veja-se
a delicadeza
do gesto;
quando
por outras
terras e nas lutas políticas,
cada um se arroga ser melhor
que o outro, e só não
se matam porque a Europa
chama constantemente a
atenção para a democracia
que não evita o insulto e o
enxovalho, no Entroncamento,
um homem simples
despoja-se do cargo e entrega-
o. Desta maneira sacode
os invejosos que, por
frustração, por não terem
conseguido os seus objectivos
na vida, se afadigam a
apoucar o trabalho de quem
apresenta obra a favor de
toda a comunidade.
José Duarte Coelho largou
o lugar que lhe pertencia
por direito próprio, dando
assim mais um exemplo
de que esta terra é especial.
Aqui, a importância de
cada um está no que sabe
e na saudação que não se
nega a ninguém. Aqui, o desenvolvimento
é feito sem
grandes sobressaltos.
Jacinto Marques Agostinho
aposta na economia.
Desenvolvem-se as serrações
de madeira, as fábricas
de pimentão, as destilarias,
as fábricas de vinagre, as
fábricas de cortiça, as fábricas
de curtumes. A C.P
tem cada vez mais material
circulante; aumentam
as oficinas de montagem e
de reparação para todas as
composições.
O movimento era muito
intenso nas vias porquê?
Temos de nos lembrar que
até 1960-65 eram usadas as
deslumbrantes máquinas a
vapor e que, apesar do seu
tamanho e peso, tinham
pouca força, mesmo que fossem
muito bem alimentadas
a carvão ou a lenha. Elas
viam-se aflitas para puxar
quatro ou cinco carruagens,
ou meia dúzia de vagões. As
infelizes deitavam os bofes
92 Cunha Simões
de fora e às vezes as tripas.
Não raro rebentava uma ou
outra peça quando o esforço
era exagerado. Os fogueiros
e os maquinistas eram sacrificadíssimos!
Os senhores Manuel Paulino
e António Aguiar Esteves,
que antes de passarem
a maquinistas foram fogueiros,
contaram-me que passaram
verdadeiros dramas,
mas dos quais, hoje, já têm
saudades.
Se nós pensarmos que
uma máquina do Entroncamento
até Castelo Branco
chegava a gastar um vagão
de carvão, já podemos imaginar
o esforço que o fogueiro
tinha de fazer para ir
alimentando constantemente
a fornalha.
O Senhor Manuel Paulino
contou-me que, às vezes,
o carvão para colocar
no “Tender” não chegava e
era completado com mais
algum que tinha de ser carregado,
em canastras, à cabeça.
Se nos dias normais
era mau, quando chovia, o
fogueiro, ficava mais preto
que um tição. Ficava mascarrado
da cabeça aos pés.
Era carregar o carvão, era
meter água, era alimentar
constantemente a caldeira.
Isto, cinco ou seis dias por
semana e entre 12 a 16 horas
de trabalho por dia. Muitas
vezes tinham de dormir no
“Tender” porque os locais
onde iam descarregar não
tinham alojamentos.
O senhor António Esteves
que também foi limpador
de máquinas, antes de
passar a maquinista, disse
-me que o que lhe custava
mais era “limpar o fogo”
quando tinha de tirar a jorra
para meter carvão novo.
Mas estes trabalhadores incansáveis
recebiam a compensação
no regresso ao lar.
As mulheres tinham de os
meter na barrela como se
fazia à roupa.
No Entroncamento a CP
tinha muito boas casas para
os ferroviários deslocados.
A casa enorme e confortável,
que ainda existe,
tinha mesmo uma mulher
de limpeza que arrumava os
quartos, mudava os lençóis
e deixava tudo impecável
para os seguintes. Por todo
o País e nas estações terminais
a CP passou a ter dormitórios.
Hoje prefere que
os ferroviários, em deslocação
de serviço, durmam em
hotéis ou residenciais.
Mas nada melhor do que
o regresso a casa, passados
dias, e o encontro com
a mulher. O fogo do amor
era mais intenso. O Entroncamento
aumentou rapidamente
a população, os divórcios
não existiam, a harmonia
familiar era consistente
e os filhos compreendiam
e valorizavam a coragem
dos pais. Muitos deles são
engenheiros, economistas,
médicos, professores, enfermeiros,
construtores de
empresas e de cidades. Os
pais e a cidade deram-lhes
todas as condições para estudarem.
Ainda hoje, o Entroncamento,
é a terra de maior
índice de natalidade porque
94 Cunha Simões
a qualidade de vida é excelente
e as pessoas estão confiantes
no futuro.
No Entroncamento não
há analfabetos. Até os que
para aqui vinham, com poucas
ou nenhumas letras,
acabavam por ir estudar
para a escola Camões, que
foi sempre a mais avançada
da Península Ibérica. Foi-o
na primeira fase e durante
muitos anos, como escola
primária. Quando passou
a Escola Industrial formou
imensos técnicos de capacidades
superiores. Pediam
meças a qualquer engenheiro
espanhol, francês, inglês
ou alemão. O valor, que
muitas vezes nós aqui, em
Portugal, não lhes damos, é
os outros que lho atribuem.
Recordo-me que por volta
de 1959, quando trabalhei
no Consulado de Portugal
em Paris, nessa altura instalado
na avenue Kléber, o
vice-cônsul, João Carvalho
da Silva, me apresentou um
ex-trabalhador da CP, daqui
do Entroncamento, julgo
que se chamava Geraldes,
que tinha estado na secção
de serralharia e que inventara
uma chave especial, patenteada
pela fábrica francesa
para que trabalhara.
Foi bem compensado pelo
invento. Ele não se cansava
de dizer que tudo o que
sabia o devia às oficinas da
CP no Entroncamento.
Esta cidade foi sempre
uma escola. O ensino e as
regras que norteavam a CP
e os seus funcionários eram
exemplares. Tanto os funcionários
como os filhos
intuíram que quanto mais
estudassem mais a vida se
lhes tornaria fácil. Foi o
que fizeram. Hoje não há
nenhum que não esteja bem
instalado na vida.
Na Primeira República
houve alguns problemas,
bastante graves, entre os
ferroviários, mais os do sul
do que os daqui do Entroncamento,
mas entre 1928 e
1991 só me consta um protesto,
por volta de 1961 ou
1962, durante 24 horas de
fumo preto no braço esquerdo
por aumento salarial.
Durante todos estes anos os
ferroviários também pouco
foram incomodados pela
PIDE. Mesmo nesse dia
quando procuraram saber o
que se passava, o engenheiro
Franklim Torres impediuos
de entrar no seu gabinete.
Disse-lhes que o assunto era
entre ele e os trabalhadores.
O problema morreu ali.

XVI

O primeiro Presidente de
Câmara, passados dois anos,
deixou o cargo por motivo
de doença. É chamado, outra
vez, o Homem que tinha
já demonstrado reais qualidades
de amor pela terra
onde viera trabalhar como
ferroviário.
José Duarte Coelho, tomou
posse do cargo em Novembro
de
1947 que
ocupa até
Janeiro de
1959, não
desiludiu,
continuou
s i m p l e s
como sempre fora e empenhou-
se no desenvolvimento
planeado.
Salazar continuava a governar
com muita firmeza.
Em 1948 o Professor Adriano
Moreira é preso por responsabilizar
o Ministro da
Guerra pela morte do General
Marques Godinho. O
padre Abel Varzim é admoesteado
por usar um estilo
marxista no jornal “O Trabalhador”.
No Entroncamento a
vida continua sem sobressaltos.
O governo difícil de
uma pequena terra sempre é
mais fácil do que o de um
país. Quando em 1949 são
eleitos 120 deputados à Assembleia
Nacional, disseram-
me que ele tinha sido
um dos sondados, mas que
polidamente recusara dizendo
que era mais útil ao
Entroncamento.
José Duarte Coelho não
se mete em políticas de alto
gabarito, mas tudo quanto
pode aproveitar a bem do
Concelho aproveita.
Em 1953, Salazar põe em
prática os Planos de Fomento
e José Duarte Coelho vai
sempre sugerindo apoios.
Para melhor servir a terra
aceita fazer parte da União
Nacional. Quanto mais
gente do poder conhecesse
mais fácil seria tornar o Entroncamento
uma grande cidade.
Esta visão estratégica
tem dado largos frutos até
aos dias de hoje.
José Duarte Coelho dá
prioridade à água com a
construção de uma central
para captação de águas;
a segurança, tanto a nível
pessoal como patrimonial.
Assim nasce o edifício para
um destacamento da PSP e
a Corporação dos Bombeiros
Voluntários. Aumenta
as obras dos esgotos, ultima
a construção dos bairros
José Frederico Ulrich
e Bairro Salazar (mudado
98 Cunha Simões
depois do 25 de Abril para
bairro da Liberdade). Inaugura
um Posto Hospitalar e
pavimenta muitas ruas cuja
necessidade era premente.
Com José Duarte Coelho
a terra e o Homem andaram
sempre de braço dado. Tenho
a certeza que mesmo
dormindo, os seus sonhos
eram sempre: mais Entroncamento,
mais Entroncamento.
Também eu, quando tinha
os meus cinco anos
fui com meus pais visitar a
Exposição do Mundo Português.
Lembro-me perfeitamente
quando passei aqui
pela primeira vez e que por
um feliz acaso, a máquina
avariou. Deviam ter avisado
que a reparação demoraria
pelo menos uma hora.
Não me lembro. Achei que
foi muito rápido. Aquela
paragem foi uma festa.
Nunca tinha visto tantas
máquinas de um lado para
o outro. Aquilo era um sonho:
aquele fumo fazia-me
imaginar os castelos encantados,
cobertos por névoas.
E a maneira como elas se
moviam? Aquele barulho
de ffffff, pouca-terra, fffff.
Sei que fomos dormir a Lisboa,
em Alcântara, a casa de
meu tio, por afinidade, José
Caldeira, que era factor da
CP. Dormi no quarto do
meu primo António. Meu
tio, de manhã, disse a meus
pais que eu passara a noite a
sonhar e a dizer alto: poucaterra,
pouca-terra, poucaterra.
Com José Duarte Coelho,
devia suceder o mesmo. O
Entroncamento era a menina
dos seus sonhos. Por ela
fez tudo quanto sabia e tudo
quanto foi capaz.
Sucedeu a este incansável
Presidente, o senhor
Manuel Pedroso Gonçalves.
Entroncamento, o comboio, a terra e os homens 99
T o m o u
posse em
12 de Janeiro
de
1960, era
Chefe da
Manutenção
Militar
e professor de matemática
no Externato Mouzinho de
Albuquerque.
Pedroso Gonçalves continuou
o projecto de ampliação
das escolas, o prolongamento
da estrada das
Vendas e do Forno do Grilo.
Continuou com a política de
arruamentos, saneamento e
esgotos, que tanto facilita a
vida às pessoas.
O ano de 1961 foi um
ano desgraçado para o Governo
do Professor Oliveira
Salazar, logo em Janeiro, o
comandante Henrique Galvão
toma de assalto o paquete
“Santa Maria”. Em
Fevereiro e Março começam
os assaltos às esquadras
de polícia em Luanda
e os assassínios dos colonos
que viviam perto da República
do Congo. Em Abril,
o General Botelho Moniz,
Ministro da Defesa, tenta
um Golpe de Estado. A finalizar
o ano, fogem presos
políticos de Caxias. A
Índia ocupa, pela força, os
territórios de Goa, Damão
e Diu. São presos militantes
do PCP por denúncia de
um camarada; a PIDE mata,
acidentalmente, o escultor
José Dias Coelho que tinha
pertencido ao MUD Juvenil
e ao PCP.
Pior ano que o de 61 era
difícil de imaginar.
No Entroncamento continuava-
se a privilegiar o
trabalho e o bom senso. Se
não se pode caçar com cão,
caça-se com gato. Foi o que
fez Pedroso Gonçalves. Se
o Estado não tinha dinhei100
Cunha Simões
ro disponível para uma sala
de operações e a Câmara
também não, havia que usar
a inteligência e os conhecimentos.
Não esteve com
meias medidas, recorreu
à Fundação Calouste Gulbenkian.
O equipamento
necessário foi oferecido.
Como Pedroso Gonçalves
tivesse pedido exoneração
do cargo, substituiu-o o
vice-presidente Raul Matos
Torres até 1962, que deu
continuidade aos trabalhos
em andamento.
Logo no
início de 62
toma posse
Eugénio
Dias Poitout.
Na capital
do Império os acontecimentos
não eram para
graças. Os estudantes Universitários
fizeram uma série
de greves de protesto.
Como não parassem com as
reivindicações, nada melhor
do que lhes dar umas chanfalhadas,
tal como ainda se
fazia por toda a Europa e se
há-de ainda fazer no Maio
de 68 em França. Marcello
Caetano, reitor da Universidade
Clássica de Lisboa
demite-se do cargo por discordar
de tal procedimento.
Poitout só pensa na terra
que tinha para governar.
Lança-se ao trabalho e faz
o prolongamento da estrada
que liga as Vendas ao Largo
da Estação, manda pavimentar
ruas, amplia escolas,
aumenta a rede de esgotos,
continua a cobertura da Ribeira
de Santa Catarina, a
qual se passeia calmamente
pelo interior desta cidade,
mas entubada. Continua o
expediente normal de um
Presidente de Câmara.
Mas Poitout tinha um sonho:
uma Escola Técnica. E
tanto lutou por ela que em
21 de Novembro de 1964 o
seu sonho se concretizou.
O sonho durou dez anos.
O 25 de Abril acabou de
forma insensata com todas
as Escolas Comerciais
e Industriais do País. Um
dos grandes motores do desenvolvimento
de Portugal
parou de funcionar e ainda
hoje se vêem os seus nefastos
resultados. Esperemos
que a demagogia não continue
a enganar os que sabem
menos e que se deixam ludibriar
pelas palavras fluentes
daqueles que só pensam nos
seus interesses, ou de outros
que não têm coragem para
dizer não, porque isso lhes
pode custar os lugares.
Eugénio Poitout depois
da Escola lança-se ao trivial;
à pavimentação das
ruas, à estação depuradora,
aos sanitários, à electrificação
da Zona Verde, à construção
das mais diversas infra-
estruturas e ao viaduto
que liga a zona norte à sul.
Em Janeiro de 1974, Eugénio
Poitout passou testemunho
a Fernando Gomes
dos Santos.
Q u a n d o
Gomes dos
Santos já
tinha gizado
o Plano
Municipal;
a abertura
102 Cunha Simões
da Avenida da Estação, a
reparação e conservação de
rodovias, a electrificação
de ruas e praças, o abastecimento
de água ao Forno
do Grilo, a primeira fase
da construção do mercado
novo, a preparação para as
expropriações de terrenos
para localizar a feira do
gado, a construção de uma
estação depuradora de esgotos
e um projecto para
um parque no Bonito, veio a
Revolução do 25 de Abril e
tudo se complicou. De cada
cabeça vinha sua sentença e
toda a gente se dizia democrática
como se nesta terra
alguém o não fosse.
A democracia não se
apregoa. Pratica-se. São os
actos das pessoas que contam.

XVII

Depois do vitorioso Pronunciamento
Militar a que,
encomiasticamente foi dado
o nome de Revolução, a
vida no Entroncamento não
mudou em nada. Não houve
nem festejos nem manifestações
de regozijo ou desagrado.
A vida continuou
como sempre.
A democracia tinha chegado
ao Entroncamento por
volta de 1858 ou 59 com o
assentamento dos primeiros
carris. A partir desse momento
e até aos dias de hoje,
munícipes e autarcas souberam
respeitar-se e conviver
em verdadeira democracia.
É tanto assim que quase
todos os autarcas saíram dos
quadros dos trabalhadores.
Daqueles que sabem o que
é comer o pão com o suor
do rosto. É tanto assim que
o Professor José Francisco
Corujo, homem impoluto,
professor exemplar e que tinha
sido Juiz de Paz e Delegado
da Legião Portuguesa,
nunca escondeu esse facto
e à entrada da sua pequena
e modesta casa, na rua da
Igreja, pendurou a farda por
baixo de um retrato que o
mostrava fardado. Isto vem
relatado no suplemento nº
885 de “O Entroncamento”.
Na verdade, isso não fazia
dele menos democrata, já
que depois da revolução to104
Cunha Simões
dos se assumiam como democratas.
Ser democrata é
o que todos os portugueses
sempre foram sem o saber.
Também não sabiam o que
era a ditadura nem o fascismo
porque ninguém falava
no assunto. Só alguns comunistas
é que sabiam o que
era, mas como eram poucos
ninguém dava por eles. Nem
eles tinham coragem para se
mostrar, porque constava, e
era verdade, que o comunista
José Estaline tinha mandado
matar três milhões de
camaradas. Ser democrata é
ser leal para com os outros,
é ser solidário, é ser igual,
é ser fraterno e o Professor
José Francisco Corujo sempre
o fora, com aquela farda
ou sem ela, com o outro regime
ou com este.
No Entroncamento nunca
ninguém foi imposto.
Houve escolhas que todos
aceitaram e gostaram. Respeitaram
quem mandava
e não se deram mal. Compulse-
se todos os dirigentes
desde José Duarte Coelho,
Jacinto Marques Agostinho,
Manuel Pedroso Gonçalves,
Eugénio Dias Poitout, Fernando
Gomes Santos, Carlos
Pereira Lucas, António
Augusto Pereira Cardoso,
Afonso Serrão Lopes, Manuel
Fanha Vieira, José Pereira
da Cunha e Jaime Ramos.
Vejam-se quais são os
seus pergaminhos: trabalho,
honestidade e respeito pelos
bens públicos.
A democracia baseia-se
nos princípios de igualdade
e liberdade. No Entroncamento
não me consta que
desde o carrear do primeiro
material, ao assentar do
primeiro carril até aos dias
de hoje alguém tenha sido
privado de liberdade por dizer
e fazer o que lhe apetece
desde que não prejudique os
Entroncamento, o comboio, a terra e os homens 105
outros. Quanto a igualdade,
esta terra nunca teve bitolas
diferentes. Todos se respeitam
e acatam as ordens e as
ideias de quem chefia e de
quem sabe mais.
Fora do trabalho o nivelamento
é perfeito.
Mas revolução é revolução
e neste caso os revolucionários
que deviam saber
tanto de administração autárquica
como de chinês,
nada mais fizeram que paralisar
o que estava em andamento.
Felizmente que
os entroncamentenses são
pouco dados a deslumbramentos.
Sabiam o que pretendiam.
Ouviram, disseram
que sim e fizeram como
entenderam. Nisto perdeuse
imenso
tempo. Por
fim foi eleito
para presidir
à Comissão
Administrativa,
Carlos Pereira Lucas
que teve o apoio do anterior
presidente Fernando Gomes
dos Santos e de Joaquim
Ferreira Purgatório Júnior.
Carlos Pereira Lucas
continuou o que já estava
em andamento, concluiu
a estrada dos Foros da Lameira,
saneou e pavimentou
no Alto da Sobreira, pavimentou
e fez as infra-estruturas
na rua do cemitério,
pavimentou a rua D. Pedro
V e deitou mãos aos problemas
dos retornados e dos
mais carentes realojando-os
em casas pré-fabricadas no
Bairro Eng. José Frederico
Ulrich.
Entre a formação da Comissão
Executiva e as próximas
eleições Autárquicas
o que se passa no País?
Depois da euforia inicial
entrou-se no caos. Cada
um a puxar para seu lado.
As greves eram gerais. O
povo não compreendeu que
era o maior prejudicado. O
Entroncamento manteve-se
calmo. Continuou o seu trabalho.
A descolonização foi
vergonhosa por incapacidade
governativa. Centenas de
milhares de pessoas foram
prejudicadas. A confusão é
geral. Ninguém se respeita.
Nas escolas é a balbúrdia.
Acabam as Escolas Comerciais
e Industriais. Os
trabalhadores só ouviam os
demagogos apregoar mentiras
e tantas vezes essas
mentiras eram repetidas e
misturadas com um mínimo
de verdade que os mais estúpidos
acreditavam nelas.
Convenceram-se que liberdade
era só trabalhar quando
entendessem. Naquelas
cabeças deviam pensar que
depois da revolução o trabalho
aparecia feito por milagre.
Resultado: muitos suicidaram-
se por vergonha e
por nada terem para comer.
No Entroncamento reina
a paz e a inteligência. Esta
terra não corre a foguetes.
O PREC (Processo Revolucionário
em Curso) é
liderado pela inconsciência
e por muitos oportunistas
que hoje estão multimilionários.
Os outros que eles
diziam defender ou morreram
ou continuam com uma
mão à frente e outra atrás
das costas.
No Entroncamento as
pessoas foram progredindo
naturalmente. A vila não parou,
mas abanou. Uns tantos
arrivistas, auto denominando-
se democratas, como se
isso lhes desse direito a fazer
toda a casta de atropelos,
tentaram por todos os meios
apagar o nome do Homem
que tinha dado tudo por esta
terra. Felizmente que os entroncamentenses
impediram
esta insânia e José Duarte
Coelho continua a figurar
não só na toponímia do Largo
onde tem o nome, mas
ainda no coração de todos,
que lhe agradecem a luta
que travou, sempre com inteligência
e prudência, para
alcançar a dignidade a que o
Entroncamento tem direito.
O descrédito internacional
é enorme. Comunistas e
socialistas por pouco não se
desfazem uns aos outros. O
1º de Maio de 1975 esteve a
pontos de tudo fazer explodir.
A insegurança é geral.
Vasco Gonçalves resolve
alargar os cordões à bolsa
e há um aumento geral de
salários. Um aumento significativo.
Mas a proporção
entre os salários ficou de 3
para 9. A classe trabalhadora
ficou contente, nem se
apercebeu da desproporção.
Os trabalhadores da CP no
Entroncamento ficaram gratos
ao homem. Quem está
habituado a ganhar pouco,
facilmente se contenta e
não pergunta quanto é que
os outros ficam a ganhar.
A luta surda continua. O
Governo declara-se incapaz
de governar, a confusão
atinge o clímax e só uma
acção armada em 25 de Novembro
de 1975 põe fim aos
exageros e à perigosa ignorância
de uns tantos inconscientes.
Em 31 de Dezembro de
1975 é criado o (CADE)
Clube Amador de Desportos
do Entroncamento.
O ano de 1976 foi de
pacificação. Fizeram-se as
eleições para a Presidência
da República. A 25 de Abril
realizaram-se para a Assembleia
Legislativa.
E nas eleições Autárquicas
no Entroncamento, o
que acontece em Dezembro
de 1976?
Foi eleito Presidente da
108 Cunha Simões
Câmara António
Augusto
Pereira
Cardoso que
governou durante
pouco
mais de um
ano, mesmo
assim deixou obra.
Continuou a pavimentação
das ruas, o saneamento
básico. A construção das
infra-estruturas da zona
envolvente ao novo mercado,
a instalação de um
novo posto de transformação
para fornecer energia à
zona envolvente ao Largo
24 de Novembro. Concluiu
a 2ª fase do prolongamento
da Avenida da Estação. Fez
expropriações de terrenos
no Casal da Galharda. Programou
o Plano de Pormenor
de Urbanização da zona
entre as ruas Elias Garcia,
Verdades de Miranda, Gonçalo
Mendes da Maia e a 1º
de Maio.
Consciente de que o estudo
é o segredo do sucesso,
aumenta o prémio para os
melhores alunos e imagina
um Plano de Construções
Escolares para o ensino Básico.
Em Setembro de 1978
assume a Presidência da
Câmara, mais um funcionário
da C.P; Afonso Serrão
Lopes.
S e r r ã o
Lopes sabe
o que é a
ordem, a
gestão e o
t r a b a l h o .
Tal como alguns dos seus
antecessores tinha sido funcionário
da CP; maquinista,
inspector de tracção e Chefe
de Depósito.
A qualidade de vida é
fundamental e para que ela
seja plena é indispensável
que os movimentos de
Entroncamento, o comboio, a terra e os homens 109
comboios sejam compensados
com a purificação do
ar. Imediatamente manda
colocar árvores em diversos
pontos da cidade, como se
desse modo quisesse reforçar
os pulmões deste Entroncamento
de muitas vidas.
Acaba a terceira fase da
Avenida da Estação, alarga
a rua Joaquim Estrela Teriaga,
pavimenta a rua 5 de
Outubro, remodela a rede de
esgotos e repara a Estação
de Tratamentos. Trata dos
arranjos no Parque do Bonito
onde adquire mais 10
mil metros quadrados, manda
arranjar o jardim público
da Zona Verde, faz obras no
Mercado Municipal.
Para que o trabalho nunca
falte incentiva o desenvolvimento
Industrial. Executa
o Plano de Pormenor e
o estudo económico para a
Zona Industrial.
Consciente da força do
ensino não o descura e são
criadas 7 salas para a Pré-
Primária e 2 salas para a
Primária. Trata de adaptar
novas salas para o funcionamento
da Biblioteca. Recupera
o campo de futebol.
Talvez por excesso de
trabalho, ou cansaço, manda,
inexplicavelmente, destruir
o belo chafariz que se
encontrava no Largo José
Duarte Coelho; o Chafariz
do Bairro Camões e o artístico
Lampião, apagando,
deste modo, algumas das
memórias colectivas deste
povo. E não destruiu o chafariz
das Vaginhas, projecto
de Cottinelli Telmo, porque
o povo se opôs a que o fizesse.
O Pres
i d e n t e
seguinte,
entre 1983
e 1986, foi
o senhor
110 Cunha Simões
Manuel Fanha Vieira, filho
de ferroviário, mas ele próprio
Técnico Oficial de Contas.
Habituado a lidar com
os números soube-os aproveitar
bastante bem. Isso
constata-se pelos dinheiros,
a fundo perdido, que trouxe
para a autarquia e a aplicação
rigorosa que fez deles.
Elaborou o Plano Geral de
Urbanização (PGU), algo
de raro no país. Lançou
depois mãos na ampliação
e remodelação da rede de
água. Ampliou a Estação
de Tratamento de Esgotos
domésticos. Pôs em marcha
os projectos para a recuperação
do Mercado Antigo,
para a primeira piscina coberta,
para o alargamento
da estrada das Vendas assim
como o alargamento da Rua
D. Pedro V com a ligação a
esta mesma estrada. Pensase,
mais uma vez, no Museu
dos Caminhos-de-ferro.
Através dos Serviços Técnicos
da Câmara Municipal
foram elaborados os projectos
determinados para a
Junta de Freguesia, Biblioteca,
Delegação Escolar, arranjos
exteriores do Bairro
da Coferpor, infra-estruturas
da Zona Industrial, nó
de ligação da Zona Industrial
à Estrada Nacional nº3;
revisão do Plano Geral de
Urbanização e rede de esgotos
domésticos da Avenida
da Estação. Fez o Estudo
Prévio para a zona desportiva
do Parque do Bonito e o
Estudo de Ordenamento de
Tráfego.
São implementados os
serviços da Conservatória e
da Comarca. O Jardim-escola
da Fábrica da Igreja e o
Pavilhão dos Bombeiros.
Foi também no mandato
do senhor Manuel Fanha
que toda a zona fronteira à
Estação começa a ganhar a
força e a beleza que nos dias
de hoje já apresenta, depois
de algumas remodelações.
Ao progresso e ao futuro
teve de ser sacrificado o
Prédio Paris, que além de
condicionar todo o desenvolvimento
da parte mais
nobre da cidade, estava
num estado de degradação
muito difícil de recuperar.
Entre paralisar o desenvolvimento
da cidade e tomar
uma decisão difícil, Manuel
Fanha teve de optar. Se os
governantes assim não fizessem,
depois de ponderadas
todas as opções, ainda
hoje estávamos na Idade da
Pedra.
Se fossemos um país
muito rico aquilo que faríamos
era desmontar a casa
e colocá-la noutro local. Infelizmente
não somos, e entre
beneficiar a população
ou sacrificar uma casa emblemática,
mas que era impeditiva
do progresso e da
qualidade de vida de uma
população, optou-se pela
primeira hipótese.
É também durante o mandato
do Presidente Manuel
Fanha que Portugal entra na
CEE. Hoje União Europeia.
Portugal ainda continua
muito cambaleante. Ramalho
Eanes, mais uma vez
dissolve a Assembleia da
República, o que para além
de atrasar tudo no país,
afecta de sobremaneira os
mandatos dos Presidentes
de Câmara.
Em 1 de Novembro de
1985 é criado o (CLAC)
Clube de Lazer, Aventura e
Competição.
Entre 1986 até 2001 esteve
à frente
da autarquia
o senhor José
Pereira da
Cunha, ferroviário
e filho
e neto de ferroviários. Durante
o seu longo mandato,
o Entroncamento avançou
na mesma proporção. Ele
soube aproveitar os Fundos
de Equilíbrio Financeiro e
as receitas próprias da autarquia.
Há também um período
de estabilidade devido
ao melhor entendimento
entre o Presidente da República,
Mário Soares e o
Primeiro-ministro, Cavaco
Silva. Todas as áreas foram
beneficiadas, o Ensino, a
Saúde, a Segurança Social,
a Justiça, o Saneamento Básico,
Estradas, Caminhos,
a Cultura, o Turismo, os
Tempos livres, o Desporto.
A qualidade de vida melhorou.
São inaugurados o
magnífico Lar dos Ferroviários
e o Centro de Convívio
da Terceira Idade.
Pereira da Cunha fez geminações
do Entroncamento
com Penafiel, Villiers-
Sur-Marne e Mosteiros na
Ilha do Fogo, Cabo Verde.
Foi durante os mandatos
do autarca José Cunha,
como simpaticamente era
tratado, que a Câmara do
Entroncamento e a EPAL
fizeram que a cidade tivesse
água em quantidade e qualidade.
O abastecimento e armazenamento
contou com
dois grandes depósitos na
zona norte. Fez uma estação
elevatória de esgotos e tratamento
de águas residuais.
Para os resíduos sólidos foi
construído um Aterro Sanitário,
em colaboração com
a Câmara da Barquinha. É
dado seguimento à construção
da Conservatória e
do Tribunal. São construídos
64 fogos de habitação
Portugal parece ter, finalmente,
entrado no ritmo
Europeu. Em 1996 é eleito
Jorge Sampaio. O Banco
Central Europeu passa
a controlar a emissão das
notas em todos os Estados
Membros.
Em 1998 Portugal realiza
a última exposição do milénio.
Saramago recebe o Prémio
Nobel. A moeda muda
de cara e passa a chamarse
Euro, que fica comum a
Portugal, Espanha, Itália,
Grécia, França, Alemanha,
Áustria, Bélgica, Holanda,
Luxemburgo, Irlanda e Finlândia.
Em finais de 2001, o
Primeiro-ministro António
Guterres demite-se porque
está convencido que o país
caminha para o descalabro
e ele sente-se incapaz de resolver
a situação.
No Entroncamento realizam-
se eleições autárquicas.
O novo Presidente
social. O Centro Cultural é
transformado e inaugurado.
Por mérito, o Entroncamento
foi elevado a cidade. Depois
veio o Pavilhão Gimnodesportivo
e as Piscinas.
Inicia a Passagem Inferior.
Dá mais alguns passos para
a implantação do Museu
Ferroviário
Durante o mandato de
José Pereira da Cunha, o
País assistiu à condenação
de Otelo a 15 anos de cadeia
por pertencer às FP 25
de Abril, as quais tinham
cometido atentados, assaltos
e algumas mortes.Portugal parece ter, finalmente,
entrado no ritmo
Europeu. Em 1996 é eleito
Jorge Sampaio. O Banco
Central Europeu passa
a controlar a emissão das
notas em todos os Estados
Membros.
Em 1998 Portugal realiza
a última exposição do milénio.
Saramago recebe o Prémio
Nobel. A moeda muda
de cara e passa a chamarse
Euro, que fica comum a
Portugal, Espanha, Itália,
Grécia, França, Alemanha,
Áustria, Bélgica, Holanda,
Luxemburgo, Irlanda e Finlândia.
Em finais de 2001, o
Primeiro-ministro António
Guterres demite-se porque
está convencido que o país
caminha para o descalabro
e ele sente-se incapaz de resolver
a situação.
No Entroncamento realizam-
se eleições autárquicas.
O novo de Câmara é
Jaime Ramos;
bancário, mas
filho de ferroviário.
Homem
dinâmico e,
atento ao evoluir
do mundo
agarra com determinação as
rédeas da autarquia.
Hoje, em Portugal, sabese
em poucos minutos aquilo
que há duzentos anos demorava
a tornar-se conhecido
depois de vários dezenas
de anos da primeira descoberta.
Houve tempos em que
isso demorou séculos. Primeiro
o telefone fixo, a
televisão, os telemóveis e
ultimamente a Internet fazem-
nos chegar de imediato
a informação.
Jaime Ramos sabe aproveitar
todo o conhecimento
a bem dos munícipes. Os
munícipes também estão
atentos ao que se passa na
sua terra e no País. Ouvem
atentamente a Rádio Voz
do Entroncamento e lêem o
Notícias do Entroncamento,
a par dos jornais, rádios e
televisões nacionais.
A cidade cresce a um ritmo
vertiginoso. Por todo o
lado, as construções explodem
em moradias de grande
qualidade, em prédios de
vários andares. O surto de
edificações é enorme e as
casas à venda ou para alugar
superam as necessidades, o
que só beneficia quem as deseja
e quer viver no centro
do País, gozando as delícias
do campo, neste Ribatejo de
alegria, espaço e cor, e beneficiando
da qualidade de
vida de uma cidade de alto
nível europeu.
A educação tem sido e
continua a ser a preocupação
principal de Jaime Ramos,
segundo o programa
que apresentou para o próximo
quadriénio, pois venceu
mais um mandato, tendo
como Vice-Presidente o
dinâmico Luís Filipe Boavida
e como Vereadores João
José Fanha Vieira e Maria
João Gil. Como Presidente
da Assembleia, João Aires
Moreira. Presidente da Junta
de Freguesia de São João
Baptista, Teresa Maria Ferreira
e Presidente da Junta
de Freguesia de Nossa Senhora
de Fátima, Manuel
Pereira Bilreiro.
Jaime Ramos no anterior
mandato preocupou-se em
consolidar todas as estruturas
deixadas pelos mandatos
anteriores. Desse modo
evitou a sua degradação,
aumentou-lhes o tempo de
vida e a sua funcionalidade.
Completou os projectos em
andamento. Por outro lado
comprou material de ponta,
para manter a cidade com
uma qualidade de vida invejável
em todas as áreas.
Como o Entroncamento
é uma cidade plana, Jaime
Ramos, propôs-se imple
mentar uma rede de ciclovias
para não só diminuir
o trânsito de veículos automóveis
no interior da cidade
como para incentivar uma
maior mobilidade e evitar o
sedentarismo.
Jaime Ramos continuou
a pavimentação de ruas ao
mesmo tempo que implementava
a conservação da
rede viária em vários locais
da cidade. Fez a remodelação
dos esgotos em várias
artérias. Foi feita a conservação
e construção de entradas
e vedações em escolas
de maneira a aumentar a
segurança de alunos, professores
e funcionários. Fez a
requalificação dos Recreios,
com parques infantis, em todas
as escolas, modernizou
edifícios e equipamentos.
Mandou elaborar e executar
arranjos exteriores tanto na
zona envolvente à piscina
municipal, como à cobertura,
acabamentos e equipamentos
da mesma.
Comprou veículos de
transporte, TURE, e implementou
o novo esquema de
circulação na cidade.
Fez a adjudicação do
Edifício da “Redonda” com
vista à implementação do
Museu Nacional Ferroviário,
o que é da mais elementar
justiça para esta terra.
Ao ser criado e desenvolvido,
no Entroncamento um
Museu Nacional Ferroviário
criará, nesta região, um
dos núcleos turísticos mais
rentáveis em todo o mundo,
conhecidos que são os milhões
de apaixonados pelos
comboios e por tudo quanto
lhes recorde os seus primórdios
e o seu enquadramento
inicial.
O Entroncamento guardou
todas estas características
porque não teve guerras
que lhas destruíssem como
aconteceu em toda a Europa.
Santarém, Tomar, Torres
Novas, Barquinha, Almourol,
Constância, Abrantes,
Belver, Golegã, Fátima,
Chamusca serão extremamente
beneficiadas desde
que as enquadremos num
roteiro turístico bem estruturado,
o que não é difícil.
Basta deixarmo-nos de rodriguinhos
e encararmos o
assunto com determinação
e profissionalismo.
Neste ano em que a CP
comemora os 150 anos do
começo deste fabuloso e
cómodo meio de transporte
que é o comboio, nada seria
mais coerente do que fazer
do Entroncamento, em colaboração
com o Município,
um pólo de Turismo Ferroviário.
Todos os outros concelhos,
por onde passa este
semeador de progresso, es
tarão de acordo. O Entroncamento
possui as estruturas
e é o melhor situado.
Nos seus arredores a Cardiga
prepara-se para se transformar
em Pousada ou algo
semelhante. Na Barquinha
desenvolvem-se pólos de
entretenimento.
Podíamos mesmo delinear
um programa turístico
aproveitando a Feira Nacional
de Agricultura em Santarém,
as festas dos Templários
em Tomar, a feira do
Cavalo na Golegã, a cidade
florida de Abrantes e o seu
centro histórico, as Pomonas
Camonianas ou a festa
dos Barqueiros em Constância,
as idas ao castelo de
Almourol.
O Entroncamento é um
pólo irradiante que tem
como mina de ouro o Comboio
desde o seu nascimento,
o espaço imenso para
manobras, os edifícios, de
onde se destaca a central
eléctrica e todos os bairros
históricos onde há dezenas
de casas devolutas, verdadeiro
“El Doirado” para o
Entroncamento, para a CP,
para os Agentes de Viagens
e naturalmente para Portugal
pois é todo o País que
beneficia.
Não se pode travar a implementação
de um Museu
Ferroviário na única locali
dade do País que tem todas
as condições para o fazer
com a desculpa que há núcleos
museológicos perto.
Mas ninguém diz que não
são visitados porque lhes
falta vida, porque não têm
condições atractivas, porque
foram feitos ao arrepio
de qualquer estudo de
viabilidade, porque as suas
condições de segurança são
precaríssimas e o perigo de
destruição por incêndio está
à vista, isto para não ser
mais agressivo nas razões
porque foram criados e não
deviam ter sido.
O Entroncamento tem
um museu vivo, activo, que
mexe, que anda, que fumega.
Neste momento, a REFER,
até tem um enorme
espaço livre perto das bilheteiras,
onde estavam as
casas dos factores e que foram
deitadas abaixo, para aí
se poder construir, de raiz,
a parte coberta e de estudo
não só para os trabalhadores
ferroviários, mas também
de todos os investigadores
portugueses e do resto do
mundo que aí queiram desenvolver
os seus conhecimentos.
Nem nos falta a
escola, nem o patrono.
O Turismo Ferroviário
atrai milhões. Esta cidade
nunca mendigou. Apresentou
projectos. Baseia-se em
factos e em números.
O Entroncamento pode
aqui continuar o sonho do
Infante. Ele no mar, o Entroncamento
em terra. O
nosso oiro dá pelo nome de
Comboio, Museu e aloja120
Cunha Simões
mento nos Bairros Ferroviários.
Todos os apaixonados
dos Comboios, e são milhões,
sonham viver, alguns
dias, em casas de ferroviários
e com as condições
que tinham há cem anos. O
Entroncamento é a única cidade
do mundo que os pode
satisfazer.
Esperemos que a CP e
o Governo tenham isso em
consideração. É Portugal
que beneficia destas circunstâncias.
Em 9 de Março de 2006,
Cavaco Silva, tomou posse
como Presidente da República.
Tanto Cavaco Silva
como José Sócrates podem
ser uma boa surpresa para
Portugal. Espero que sejam
sensíveis para este valor de
âmbito Nacional que até
pode ser implementado sem
custos para a CP e para o
Estado. Basta provocar os
agentes turísticos para rentabilizar
o empreendimento.
Em 24 de Março de
2006 a Secretária de Estado
dos Transportes, engenheira
Ana Paula Vitorino,
sem nos ter lido, sintetizou
bem aquilo que pretendemos
dizer ao longo de todo
o livro. “Entroncamento,
coração do sector ferroviário...
Passado e futuro do
Caminho-de-ferro confluem
no Entroncamento... O Entroncamento
tem sido visto
como um ponto de chegada
e confluência de várias linhas.
Queremos, no futuro,
que seja visto como ponto
de confluência e partida de
novas estratégias.”
Na mesma data da apresentação
do Plano estratégico
da EMEF (Empresa
de Manutenção de Equipamento
Ferroviário) o Ministro
Mário Lino empossou o
Presidente do Museu Nacional
Ferroviário, engenheiro
Carlos Frazão, mostrando
com este acto que o Entroncamento
tem todas as valências
para ser um pólo de
atracção de nível mundial. O
engenheiro Mário Lino deu
credibilidade às promessas,
até agora nunca cumpridas.
O Entroncamento ficar-lhe-
-á reconhecido e Portugal
também o lembrará porque
vai conseguir rentabilizar
uma região que Lisboa nunca
soube aproveitar bem.
Desde há muitos anos
que o Entroncamento é considerado
a Capital do Comboio.
Mas esta designação
nunca fez que a cidade reivindicasse
fosse o que fosse.
O Entroncamento está
habituado a ganhar as suas
medalhas pela inteligência,
pelo trabalho, por mérito
próprio e com a humildade
e a modéstia de quem sabe
quanto vale.
Esta gente não se deslumbra
por futilidades, mas
conhece a sua importância e
sabe aquilo a que tem direito.
Jaime Ramos tem consciência
disso mesmo. É um
homem informado. Os seus
colaboradores beberam nesta
terra o primeiro leite materno
e entregam-lhe sem
descanso o seu esforço e
dedicação.
É muito difícil encontrar
outra cidade onde tudo e todos
colaborem para o progresso
e o bem-estar de todos
os cidadãos como aqui
nesta terra.
Passou mais história, em
145 anos, sobre os carris
onde viaja, no tempo, este
Entroncamento do que nos
866 de sobressaltos que o
País atravessou. Aqui houve
sempre progresso.
Entroncamento, a Capital
do Comboio? Sem qualquer
dúvida.
Não foi a viagem de Lisboa
ao Carregado que inaugurou
o comboio. Foi nestas
terras de encontro, neste
entroncamento de linhas,
que o comboio ganhou toda
a sua pujança. Foi com este
acasalamento entre a terra, o
ferro, as carruagens, as máquinas,
as escolas-oficinas,
a inteligência e a vontade
humana que o comboio ganhou
credibilidade e nasceu
esta fabulosa e mítica terra
que é o Entroncamento.
PARA TODOS AQUELES QUE QUEREM
SABER COMO ESCREVI ESTE LIVRO
Primeiro, andei meses a
namorar o Entroncamento,
a olhar-lhe o céu, a olharlhe
a estação e os carris,
as janelas ferroviárias,
a observar-lhe as casas
com alma e as outras que,
com o tempo também
elas ganharão pátina.
Segundo, passei às antiguidades.
Olhei as velhas
máquinas, as carruagens,
os furgões, os guindastes,
as tomadas de água e por
aí adiante. Comparei com
os novos comboios e com
o elegante Alfa.
Como já viajei muito
no tempo fiz uma reflexão
entre o velho e o novo.
Confesso que continuo
enamorado por ambos.
Terceiro, voltei à cidade,
primeiro a pé, depois
de bicicleta. Parei aqui,
ali, acolá, ora fotografando
com os olhos, ora com
a Olimpus IS 1000 que
depois de ter passado o
Cabo das Tormentas, suporta
todas as minhas distracções.
Como ajudantes
tenho a Digital Minolta
Dimage X, um mini gravador
Sony M-88 V e um
óculo, marca Tasco, que
comprei na Feira da Ladra,
mas que é uma verdadeira
maravilha em tamanho
e poder de alcance.
Quarto, para não tropeçar
nos enganos pus dois
especialistas a folhear o
Tempo. O Professor Dr.
João Alfredo Donas de Sá
Pessoa, perito em História
de Arte e amante de comboios
e o Dr. José Patrício,
filologista e trabalhador
compulsivo. O mais estranho
é que um está numa
Universidade Brasileira e
o outro goza a reforma no
nosso armazém nacional
que dá pelo nome Lisboa.
O Patrício foi aos fundos
da CP e enviou-me tudo o
que encontrou. Deixo já o
aviso que a CP tem ainda
muito para pesquisar. Os
estudiosos sobre o Entroncamento,
estou certo,
que encontrarão aí muitas
surpresas. O Sá Pessoa
verificou se eu estava a
dizer coisas com nexo ou
só a debitar baboseiras.
Fizeram o trabalho devi124
Cunha Simões
do e eu lá fui puxando por
mim.
Quinto, voltei a olhar
a cidade, muitas e muitas
vezes. Sempre de bicicleta
ou a pé.
Sexto, fui ao Museu e
à Biblioteca do Entroncamento
folhear o que a
minha observação me dizia
que tinha de consultar.
A Biblioteca é um belo
espaço, agradável e com
muito material que pode
ser completado com o
que está guardado na Junta
de Freguesia, na divisão
Cultural da Câmara e
no filão da CP. Entrei em
contacto com os Cartórios
da Barquinha e da Golegã
e com o Arquivo Distrital
de Santarém. Tudo gente
prestável e muito simpática.
Li, de ponta a ponta, todos
os números da revista
do MNF “O Foguete”.
Folheei os Jornais “Notícias
do Entroncamento”
e “O Entroncamento”.
As revistas: “Magazine
Regiões”, “Vida Ribatejana”,
“Revista Nova”
e o Jornal Ilustrado “A
Hora”. Comparei com o
livro, “História da Imprensa
no Entroncamento”
de Maria Manuela
Poitout e Luís Miguel
Preto Batista. Continuei
com o “Entroncamento
– o Caminho-de-ferro,
factor de povoamento e
de Urbanização”, de Maria
Madalena Lopes”. “O
Entroncamento – Do mito
do progresso à realidade
Presente” de Paula Gama
do Rosário. “A Quinta
da Ponte da Pedra” , “Os
Casais das Vaginhas” e
“O Edifício do Mercado
Municipal”, Hoje, Centro
Cultural do Entroncamento”
de Luís Miguel Preto
Batista. “Aniversário da
Igreja da Sagrada Família
do Entroncamento” revista
comemorativa do 50º
aniversário. O trabalho
sobre “ O Entroncamento
e os seus Fenómenos e O
Entroncamento, Bairros
Sociais” de Elsa Maria
Bracons Bochechas. Percorri
os “Elementos para
a História da Paróquia
do Entroncamento” do
Pe. Martinho Gonçalves
Mourão. Observei, com
interesse, o agradável trabalho,
em banda desenhada,
“ Como nasceu o Entroncamento”
dos alunos
do 6 J - 1996/97 da Escola
do Ensino Básico Dr. Ruy
Andrade. Li o “Guia do
Viajante nos Caminhosde-
ferro” de Alberto Pimentel
e o “Manual do
Viajante em Portugal” de
Carlos D’Ornellas.
Sétimo, quando o livro
já estava enroupado
fui-o entregando para a
crítica aos verdadeiros
especialistas, àqueles que
viveram acontecimentos
e àqueles que também cá
vivem há muitos anos e
aos mais jovens.
Comecei pelo senhor
Walter Reis, que imediatamente
me corrigiu a
mira. A partir desse momento
tudo se tornou mais
claro.
Continuei o caminho.
Entreguei-o à Ana
Raimundo que quer ser
professora e teima em
esperar por um lugar ao
Sol, ensinando aquilo
126 Cunha Simões
que aprendeu. O Sr. Luís
Augusto Esparteiro, que
nasceu há 73 nos no Entroncamento
e que guarda
tudo quanto diz respeito
à cidade. A seguir fui aos
homens que deram o corpo
ao manifesto para que
tudo andasse nos carris.
Leu-o o Sr. Joaquim Cipriano
que me deu várias
sugestões. O Sr. Pereira
da Cunha que aclarou certos
pontos menos conhecidos.
O Sr. João Paulino
que me chamou a atenção
para alguns pormenores.
O Sr. Henrique Torres
Pina que fez comentários
muito pertinentes. O Sr.
Manuel Rosa Oliveira,
que tem imensas histórias
relacionadas com a vivência
de outros tempos. O
Sr. Lúcio Neves, que não
foi ferroviário, mas gosta
de ler e fazer palavras
cruzadas. Depois fui aos
militares: o Sr. Fernando
Pereira dos Santos faloume
do tempo em que chegou
a esta terra e, quando
nos sábados e domingos,
o Entroncamento, parecia
um deserto. O Sr. João da
Silva Alexandre achou
que eu exagerei, um pouco,
nos elogios. O Sr. Maia
Bochechas, como entroncamentense
de coração e
de raiz, concordou com o
trabalho, mas achou que
devia dar mais realce ao
papel dos militares.
Conversei com o Sr.
Manuel do Rosário Azevedo.
Além de ter andado na
primeira Escola Camões,
sabe mais de bicicletas
do que o próprio inventor
deste agradável, saudável
e ecológico meio de transEntroncamento,
o comboio, a terra e os homens 127
porte. É o meu amparo,
quando os travões precisam
ser afinados. O Sr.
Joaquim Patrício Santos
foi-me industriando enquanto
me cortava o cabelo:
“fale com este, com
aquele, com o outro”. A
Ana Protásio foi-me servindo
os almoços sem dizer
palavra. Ela sabe que
gosto de mastigar ideias,
calado, enquanto como o
rancho, o cozido, a dobrada
ou uma boa feijoada.
Enfim, só coisas leves.
O motorista do TURE,
Sr. António José Faria
Russo que dançou no Rancho
Folclórico os “Onze
Unidos”. O Sr. Artur Pedro
que me relatou as peripécias
do “Cu da Mula”.
O Sr. Joaquim Godinho
que começou a trabalhar
com 12 anos na farmácia
Lucas e que o seu maior
sonho era ter estudado.
Não pôde ser, mas é um
óptimo profissional. O Sr.
Manuel da Costa Morgado
que me falou sobre
o “Parafuso”. A D. Júlia
Canhoto que me forneceu
indicações preciosas. A D.
Laura Botto que me apontou
caminhos. O Sr. José
Manuel Sardinha que me
falou do Monumental e
de quem o fundou. O Sr.
Manuel Pires de Oliveira
que frequentou a primeira
escola Camões em 1937
e me falou dela com carinho.
O Sr. Carlos Lopes
que me pôs à disposição
material ferroviário para
fotografar.
Claro que era impensável
escrever sobre o
Entroncamento sem falar
com uma verdadeira
128 Cunha Simões
enciclopédia viva, o Sr.
Eduardo Oliveira Pinheiro
Brito, conhecido por:
Eduardo O.P.Brito.
Toda esta gente, com
quem falei, tem histórias
riquíssimas! Aqui está um
arquivo inesgotável para
quem gosta de meditar
no valor do ser humano e
aproveitar as suas experiências.
Os jovens têm no Entroncamento,
um manancial
para escrever.
O Entroncamento, devido
aos seus pujantes
144 anos, dá-nos a perspectiva
do que somos e
do que valemos.
Nesta terra podemos
seguir o percurso dos pioneiros,
daquilo que fizeram,
do seu trabalho, da
sua obra, do seu dinamismo
e da sua fragilidade.
Uns libertaram-se da
morte porque os recordamos,
outros regressaram
ao pó e desapareceram
como as casas, os edifícios
que ergueram e os negócios
que tiveram. Esta é
a condição humana.
Se quiseres deixar a tua
marca no mundo tens de
fazer algo que perdure, e
isso só se consegue estudando
e trabalhando. Mas
se a tua vontade é fraca
e preferires o regresso
ao pó, ao zero, ao nada,
imita os cães, os gatos, as
pedras da calçada e tudo
quanto te rodeia, mas que
não possui inteligência.
A cabeça é uma fonte
inesgotável de ideias. Experimenta.
Verás que consegues
colocar no computador
ou no papel tudo
aquilo que observaste. Só
Entroncamento, o comboio, a terra e os homens 129
há uma pequenina condição
que auxilia a escrita.
O estudo. Se estudares
tudo será mais simples.
Vês as coisas com outros
olhos. Compreendes mais
facilmente. O estudo evita-
te muitos problemas.
Dou-te um exemplo.
Se te debruçares sobre
uma figura típica do Entroncamento,
o “Ti Maurício,
a carroça e a burra,
a Atmosfera” chegarás à
conclusão que ele fartouse
de trabalhar e que nunca
viveu bem, apesar de
ser simpático, prestável
e sorridente. Devia sorrir
por fora e chorar por
dentro, mas como homem
bom que era, engolia as
mágoas. Se ele tivesse
estudado, a sua vida seria
muito diferente. Pensa no
assunto, estuda, mas não
te esqueças de te divertires.
Tens tempo para tudo.
Faz um plano de trabalho
e cumpre-o.
Como vês é facílimo
escrever um livro. A única
condição é estar apaixonado.
Descobre os sonhos
que o Entroncamento te oferece
www.cunhasimoes.net